Destaques

quarta-feira, 9 de março de 2016

Os Novos Bahianos - É Ferro Na Boneca (1970)








 Em meio a repressão imposta pela ditadura militar no Brasil, restou aos jovens rebeldes duas formas de expressão: ou embarcar na aventura salvacionista de esquerda e tentar combater frontalmente, com desigualdade brutal de forças, o aparato repressor do Estado ou desafia-lo de forma individual e anárquica (à maneira como vinha procedendo uma boa parte dos rebeldes do mundo inteiro ao estabelishment tecnológico), colocando-se pessoalmente contra os valores e a tradição da velha sociedade, derrubando tabus, reavaliando a importância da família consanguínea, questionando o trabalhismo vigente, fazendo uso de cannabis e LSD (se o sistema conseguia se impor no controle da realidade, não conseguiria controlar as mentes individualmente), se aproximando da filosofia oriental e mantendo uma vida totalmente oposta à que pregava o sistema. E os Novos Baianos foram os grandes porta-vozes musicais da galera que optou pelo segundo caminho.
Unidos pelo tropicalista Tom Zé, o trio formado pela dupla de compositores Luiz Galvão (letrista e coordenador artístico da banda. Foi para ele que o tradicional empresário Marcos Lázaro, sem conseguir compreender seu papel na banda, lançou o famoso: “mas nem um pandeirinho?”) e Moraes Moreira e o talentoso vocalista Paulinho Boca de Cantor, logo se juntou à niteroiense, então aspirante à atriz, Baby Consuelo e ao grupo baiano Leif’s (composto pelos irmãos Pepeu e Jorginho Gomes e pelo baixista Dadi), para montar o anárquico espetáculo “O Desembarque dos Bichos no Dia do Juízo”, que causou frisson e admiração em Salvador, e com a cuca cheia de músicas e ideias partir para o centro São Paulo/Rio de Janeiro. Logo caíram nas graças do produtor João Araújo e entraram nos estúdios da RGE para gravar seu primeiro disco, o histórico “É ferro na boneca!”. Mostrando logo a que veio, o disco abre com a poderosa faixa-título, um sucesso imediato que apresenta ao Brasil a poderosa guitarra de Pepeu Gomes numa genial letra de Galvão que mistura linguagem de quadrinhos com o concretismo de Pignatari e até bordão de radialista esportivo. Sucesso imediato! Ganhando as rádios e levando a banda tanto para programas populares como os de Hebe Camargo e Chacrinha quanto para programas “cabeça” como o de Fernando Faro, a música proporcionou o desembarque musical dos “Os Novos Bahianos” (nessa época era esta a grafia que usavam) na mainstream nacional. De saída para o exílio, Caetano Veloso deu sua aprovação em forma de dica cheia de sentidos: “Enquanto nós cantarmos, ferro na boneca. Ferro na boneca. Mesmo que não dê em nada, eu quero seus lábios abertos numa sugesta geral.” “Eu de adjetivos” vem em seguida, num clima de psicodelia total, fazendo a ponte direta entre Haight-Ashbury com Arembepe e Ipanema. “Outro mambo, outro mundo” aparece na “velocidade fuga, na velocidade da pulga” e com um delicioso portunhol de Paulinho Boca. “Colégio de Aplicação”, música nascida durante um ensaio do “Desembarque dos Bichos...” e conduzida pelo marcante violão de Moraes, é uma típica canção do final dos anos 60, homenageando um colégio de Salvador, famoso por ter as melhores cabeças jovens e as moças mais bonitas (“No céu, azul,azul fumaça, uma nova raça/Saindo dos prédios para as praças, uma nova raça).”A casca de banana que eu pisei” é um xote estradeiro com clima de "viagem" de ônibus pela Rio/Bahia e citações ao prestigiado maestro baiano Carlos Lacerda, o governador dos teclados e ao sambista Riachão. “Dona Nita e Dona Helena” é um rock cantado por Moraes, que tem como título o nome de sua mãe e da de Galvão, e ganha força com a orquestração do maestro Chiquinho de Moraes. Som de caixinha de música e entra em cena “Se eu quiser compro flores”, música que integrou a trilha do clássico filme marginal/desbunde brasileiro “Meteorango Kid” (estrelado por Lula Martins que anos depois faria a capa do estonteante “Acabou Chorare”), com mais psicodelia tropicalista e referências a viagens espaciais de todos os tipos recheadas com teclados e guitarras. “E o samba me traiu” mostra que o samba já estava no radar da banda mesmo antes de serem “convertidos” por João Gilberto. Aqui o destaque é mais uma vez os arranjos de Chiquinho de Moraes (orquestrações essas que foram ideia do atuante produtor João Araújo que praticamente criou oi disco junto com a banda). “Baby Consuelo” , mostra mais uma vez a influência do tropicalismo nesse momento do grupo e homenageia a futura grande estrela da banda que mal aparece neste Lp de estreia. Aliás, se este álbum tem uma grande falha, essa é o pequeno espaço dado para a voz de Baby. “Tangolete”, que mais tarde seria regravada pela banda em outra roupagem no também fantástico “Vamos pro mundo”, é um tango com mais uma divertida letra de Galvão (“E os bêbados calem a boca, não quero rimas de amor.”) e uma interpretação impecável de Paulinho Boca que nos remete aos cabarés baianos. No início uma homenagem ao amigo Gastão e ao maestro Hector Lenha Fietta. Que faz da sua maravilhosa orquestração um dos destaques dessa bela gravação. “Curto de véu e grinalda” é rock n’roll com Baby Consuelo mostrando a força de seus vocais, a beleza de sua voz e questionando os valores do casamento religioso. Uma das grandes sacadas dessa letra é o uso do termo “senhoros e senhoras” (que foneticamente resulta em “sem ouros e sem horas”). Mais um golaço! Em “Juventude sexta e sábado”,além do talento fora do comum de Galvão como letrista, o baixo de Dadi aparece exuberante, como em “Ferro na Boneca”, mostrando para os ouvidos mais espertos que um dos grandes baixistas do país estava despontando. “De vera” (vera anagrama de erva), mais um sucesso desse início de carreira, encerra o Lp com o “Leif’s” brilhando mais uma vez. Em versão diferente da apresentada no decadente V Festival de Música Brasileira da Record (1969), onde foram proibidas as guitarras elétricas (!), essa gravação traz o swing da bateria de Jorginho e a guitarra de Pepeu colorindo esse rock malandro com cara de Brasil bem característico do grupo. 
“Salve-se quem puder. O negócio é música. A Bahia não pode parar”, dizia o texto de Augusto de Campos na contracapa do disco. E não pararam. Depois dessa estreia retumbante, mudaram a grafia do nome, anexaram oficialmente os "Leif's" Pepeu, Jorginho e Dadi como membros do grupo, colecionaram prisões, aprenderam o silêncio com João Gilberto, gravaram mais quatro estupendos Lps - três deles obrigatórios em qualquer antologia/coleção de respeito que inclua música brasileira - e caíram nas armadilhas mercadológicas, terminando desfalcados e como uma caricatura do que um dia foram. Mas foi com esse Lp de estréia que a geração baseada descobriu sua trilha sonora. E a música brasileira viu nascer uma de suas mais geniais e criativas bandas.



(Texto: Leandro L. Rodrigues)
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segunda-feira, 7 de março de 2016

The Voice Brasil Kids - Grande Exemplo De Bundamolismo na TV









Normalmente a programação oferecida pela TV aberta é sofrível. Muito assistencialismo, exploração da miséria alheia e babação de ovo sem precedente – normalmente maquiada de homenagem ou reconhecimento de um talento que na maioria das vezes é inexistente. 
Inebriado pelo tédio e sem nada melhor para fazer, resolvi assistir ao tal “The Voice Brasil Kids”- motivo de alvoroço e comoção por parte de uma audiência já acostumada a esse tipo de “produto”.
O esquema é quase o mesmo da pavorosa versão adulta, que conta com o apresentador Tiago Leifert e  um grupo de jurados tão questionável quanto o da versão para marmanjos. Formada por Carlinhos Brown (responsável pelos já famosos momentos “presepada”), Ivete Sangalo (no lugar da sua eterna imitadora – Claudia Leite) e Victor e Léo (curiosamente as escolhas da dupla compreendem somente um voto. Porque será?!). Junte tudo isso e terá o que há de pior entre os ditos programas de auditório e que hoje são conhecidos como “reality”- piadas sem graça, avaliações altamente superficiais e uma preocupação excessiva em mostrar empatia com o que os participantes (calouros!), apresentam no palco. 
E realmente dá vontade de chorar quando os jurados fazem “caras e bocas”, tão em voga para afirmar que estão entre os politicamente corretos. O esquema é dos mais lamentáveis e o “Reality” é mais um amontoado de baboseiras e  gente sem o menor fragmento de personalidade. Por fim, nesse jogo de cartas marcadas, imperam somente as figurinhas que vencem o programa (por algumas semanas), e depois inevitavelmente submergem na total indiferença de um público boçal já ocupado em digerir qualquer outra “novidade”.


(Texto:Robério Lima)
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domingo, 6 de março de 2016

Old Funereal -Velho, Frio e Mal.



Banda:Old Funereal
Álbum:Velho,Frio e Mal
Nacionalidade:Brasil
Gênero:Black Metal
Gravadora:Independente
Ano: 2015

Nota:8.0

Track List:

1.Maldito Deus Hebreu
2.O Puro Gelo,A pura Escuridão
3.Deuses
4.Belial Príncipe da Morte
5.Tormento
6.Anjo Caído


Old Funereal é uma banda de Black Metal Old School da cidade de Boa Vista-Roraima,fundada em meados de  2008.No final de 2015 a banda lançou seu segundo trabalho de estúdio a  Demo Ep intitulado,"Velho,Frio e Mal" ,o grupo é Formado por Belilith San (Vocals),Lusbel(Guitarra),Sephiroth (Baixo),Taylork (Bateria).O quarteto nos apresenta em seu primeiro trabalho uma sonoridade totalmente Old School, gélida e morbida nos remetendo aos primórdios anos do metal das trevas, com claras influencias de bandas como Bathory,Sodom (Antigo),Possesed ,Venom,Slayer (Antigo),Celtic Frost e Hellhammer; tudo neste trabalho soa Old School, sendo sincero de coração, não como uma simples copia do passado soando forçado,aqui tudo é verdadeiramente anos 80, desde a capa com um desenho de um demônio isolado em um caverna congelada, até os riffs,a levada da bateria,o vocais rasgados e cantados em português o que da uma autenticidade a mais no trabalho, o que temos aqui é uma banda que se propõe a fazer black metal em português em sua forma mais crua e nefasta, agradará os fãs do estilo logo de cara desde os mais radicais até os mais flexíveis,dentre as músicas que destaco neste trabalho estão "Belial Príncipe da Morte" com uma levada mais cadenciada,riffs pesados e solo de guitarra mórbido e contagiante dificilmente um Banger que se preze ouvira este som sem balançar a cuca ao menos algumas vezes; outra musica que me chamou bastante atenção foi "Tormento" com uma pegada abusurbamente pesada e rápida, bateria em uma velocidade incrível conduzindo em ritmo frenético os demais instrumentos, riffs gélidos,rápidos e frios marcam esta musica que faz um ode aos Stage dives e Mosh Pits.
Se você curte Metal em sua essência mais rustica,direta e verdadeira, eis aqui um belo banquete para seus ouvidos,recomendadíssimo para todos aqueles que querem ouvir algo dentro do Black Metal que foge dos moldes atuais que o gênero prega.





Formação atual 
Belilith San (Vocals)
Lusbel(Guitarra)
Sephiroth (Baixo)
Taylork (Bateria)

Contatos 
Facebook
https://www.facebook.com/Old-Funereal-405885789473279/?fref=ts
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sexta-feira, 4 de março de 2016

Cartola - Cartola (1976)









Cartola é uma das maiores lendas da MPB. Sambista de talento, na ativa desde 1928, participando inclusive dos primórdios do que depois se tornou a Estação Primeira de Mangueira, da qual ele foi membro fundador e compositor, só teve a oportunidade de gravar um disco em 1974 aos 66 anos, e mesmo assim por uma gravadora independente, a Discos Marcus Pereira .Até então, passara a vida alternando momentos de relativo respeito e notoriedade como compositor - integrou, ao lado de Pixinguinha e Donga, entre outros, o famoso grupo convocado por Villa-Lobos para gravar música brasileira a bordo do navio Uruguai, teve sambas de enredo campeões no carnaval, vendeu músicas a troco de nada para artistas que subiam o morro para comprar composições e apresentou programas na rádio - com tempos difíceis de biscates e subempregos - foi aprendiz de tipógrafo, pedreiro (profissão onde ganhou o apelido que o acompanhou por toda vida), zelador, guardador de carros, etc. Redescoberto por Stanislaw Ponte Preta, no final dos anos 50, dizia a lenda (uma das tantas!) que havia morrido, virou dono de restaurante, o tão falado “Zicartola” (que segundo consta, foi à falência devido à falta de talento do generoso artista como comerciante), foi regravado por Elizeth Cardoso e Nara Leão, reconquistou o prestígio e passou a ser objeto de culto dos estudantes politizados dos anos 60. Só por conter seus dois maiores clássicos, “O mundo é um moinho” e “As rosas não falam”, seu segundo álbum, gravado em 1976, já poderia ser considerado um marco na música brasileira. Mas ele tinha ainda mais. Muito mais...
Com a famosa capa do cantor com sua esposa Dona Zica na janela de casa no Morro da Mangueira (casa essa que se tornou lendária por atrair a visita de artistas, jornalistas e intelectuais que partiam em peregrinação ao morro a procura do artista, o que o levou a se mudar da Mangueira anos mais tarde), um conjunto de músicos que reunia Garoto, Altamiro Carrilho, Guinga, Elton Medeiros, entre outros e arranjos de Dino 7 cordas, Cartola 1976 (ou Cartola II, como preferem alguns, ou simplesmente Cartola da janela, como chamam outros) traz o compositor no auge da forma. “O mundo é um moinho” abre o disco com a flauta de Altamiro e o violão de Guinga emoldurando uma das mais tristes e desesperançadas letras do cancioneiro nacional (“De cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares estás à beira de um abismo...”) cantada na divina voz de seu criador e transformando-se em clássico absoluto. O motivo da canção, que depois receberia regravações marcantes de Ney Matogrosso e Cazuza, também é cercado de lendas, a única coisa certa é que foi composta para a filha de criação do compositor. Na sequencia vem “Minha”, com cuíca, reco-reco, tamborim, trombone, surdo, tamborim e violão de sete cordas mandando brasa num samba típico de Cartola, com suas letras poéticas e reveladoras de seu tempo e espaço ("Como mentiram as cartomantes, como eram falsas as bolas de cristal...”), em seguida, o mestre grava um samba feito nos anos 40, mais uma declaração de amor ao Morro da Mangueira e sua gente: Sala de Recepção. “Habitada por gente simples e tão pobre que só tem o Sol que a todos cobre, como podes, Mangueira ,cantar?” , pergunta o compositor em dueto com a filha Creusa, a musa de “O mundo é um moinho”, que também aparece em “Ensaboa” (“Ensaboa, mulata, ensaboa”), um samba meio toada, uma letra típica das canções de trabalho que remete às lavadeiras com um bela viola de 10 cordas tocada por Zé Menezes. "Ensaboa" receberia anos mais tarde uma interessante releitura de Marisa Monte colando-a com "Lamento de lavadeira" de Monsueto Menezes e "Sorrow, tears and blood" do revolucionário compositor nigeriano Fela Kuti. “Não posso viver sem ela”, outro samba dos anos 40 presente no álbum, é mais um samba embolado no melhor estilo do poeta mangueirense e abre alas para “Preciso me encontrar”, música do portelense Candeia, gravada de forma sublime neste álbum com destaque para a belíssima introdução com o fagote de Aírton Barbosa. Essa gravação ganharia grande destaque mais de vinte anos depois de seu lançamento ao colaborar de maneira sublime como trilha de uma bela cena do premiado filme “Cidade de Deus”. O mestre ainda traria para o álbum, outro compositor da velha guarda: Silas de Oliveira, o mestre do Império Serrano que morrera anos antes numa roda de samba, e sua “Senhora tentação”. "Aconteceu" e "Sei chorar" são dois deliciosos sambas embolados do mangueirense com destaque para o trombone de Nelson Martins dos Santos e Elton Medeiros na caixa de fósforos. “As rosas não falam”, que se consagrou com a gravação no mesmo ano de Beth Carvalho, dispensa apresentações e comentários. Com o belo trabalho da flauta de Altamiro Carrilho e o cavaquinho de Garoto, a bela melodia casa de forma perfeita com uma das letras mais poéticas de um dos letristas mais brilhantes e sem instrução da nossa vasta galeria. O disco ainda traz outras composições que se tornaram clássicos de Cartola como a belíssima “Peito vazio”, que ganhou destaque ao integra a trilha de uma novela na voz de Lucinha Araújo (ela mesmo! A mãe de Cazuza) e “Cordas de aço”, uma canção que retrata de forma magistralmente poética a relação do compositor com seu violão e encerra de forma sublime um álbum que já nasceu clássico.
Cartola viveria mais alguns anos após esse disco. Voltaria a desfilar na Mangueira, após quase trinta anos de ausência, faria shows por todo o Brasil, realizaria o sonho da casa própria, morrendo de câncer aos 72 anos. Saiu da vida para entrar para história. E esse disco é a prova inconteste de sua genialidade. Pois, como disse seu amigo Nelson Sargento: "o Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve".


(Texto: Leandro L.Rodrigues)
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Fito Paez - Circo Beat (1995)








Depois de lançar aquele que é até hoje o disco mais vendido da história do rock argentino, ``el Amor Después Del Amor`` (1992), Fito Paes resolveu ousar: Voltou para sua Rosário natal e, inspirado nos The Beatles de ``Sgt Peppers Loney Heart Club Band´´ e  ``Magical Mistery Tour´´e sob a produção do Roxy Music Phil Manzanera, gravou um disco autobiográfico, caprichado e bem-sucedido: o clássico “Circo Beat”.
No melhor estilo “commedia dell’arte”, o disco abre com um Fito cicerone, o mesmo que aparece de palhaço na capa, chamando os ouvintes ao seu circo. “El circo más sexy, más alto, más tonto del mundo”. Circo Beat (Beatles?). Aos primeiros acordes da faixa de abertura, os fãs mais antenados já podem perceber que “As de poker”, canção que fazia parte do disco “Novela”, suposta trilha para um curta que Fito tinha intenção de filmar e que nunca chegou a lançar, cuja demo tape é hoje objeto de culto entre colecionadores do rock argentino, está ali apresentada com uma nova roupagem, modificações na letra e novo título: Circo Beat. “Psicodelica star em la mística de los pobres”, anuncia a faixa. O circo chegou. O passado, a cidade natal, a infância, a juventude, os sonhos , a realidade do compositor serão passados a limpo nesse disco filme e isso já pode ser percebido logo nessa primeira faixa que termina com um coral que nos remete a “Simpathy for the Devil”, música responsável por um momento antológico do “Rock n’roll Circus” dos Rolling Stones. Os anos 60 já estão na mesa. O hammond de Fito soa inconfundível para “Mariposa Tecknicolor”, o maior hit do rock argentino nos anos 90, entrar em cena. Um pop rock perfeito, cujo refrão foi entoado por grande parte das torcidas organizadas do país, que traz na sua letra a Rosário da infância de Fito, os apertos dos tempos de ditaduras, citações a acontecimentos trágicos de sua vida, além dos encontros e desencontros da vida de todos nós. Universal de tão pessoal. Nota dez! “Normal 1” vem com citações a Ringo afinando “el tambor de Let it be”, em sua letra nostálgica e cordas inspiradas em “Penny Lane”. “Las tardes del sol, las noches del agua” serve-se do poderoso contrabaixo de Guillermo Vadala (fiel escudeiro de Fito nos seus melhores discos) e a gaita de Toots Thielemans para contar em clima jazzístico em caso real. “Tema de Piluso”, outro hit do disco, é uma bela e emocionada homenagem a Alberto Olmedo, o Capitão Piluso, um dos maiores comediantes argentino, também nascido em Rosário, e morto, poucos anos antes, numa queda do 11° andar, num acontecimento até hoje cercado de lendas e hipóteses. “Nada nos deja más em soledad que la alegria se sí va”, canta o poeta lamentando a partida de um ídolo. “She’s mine” é uma irmã de “Un vestido y un amor” (música de sucesso do bem-sucedido álbum anterior) que traz em destaque a maravilhosa gaita de Toots Thielemans e mais uma bem sacada letra de Paez, que assim como em “Un vestido...”, tem na sua então esposa, a atriz Cecília Roth, sua musa inspiradora, mas usa um refrão em inglês para comprovar que em todo lugar “as chicas” e os apaixonados são iguais. A citação de “Strawberry Fields” traz para o circo do argentino aquele que seria o compacto perfeito de “Sgt Peppers (Strawberry Fields Forever/Penny Lane) , que o produtor George Martin decidiu não incluir no álbum, naquilo que ele considera um dos maiores erros de sua carreira. “El jardin donde vuelan los mares” é um rock mais pesado, que faz lembrar a época de “Ciudad de los pobres coraciones”, com metais e um belo solo do guitarrista uruguaio Gabriel Carámbula, líder da banda “Los Perros Calientes” que acompanhou o músico na sua milionária turnê “La rueda mágica”. “Nadie ditiene al amor em um lugar” é uma balada de clima latino e mais um belo trabalho de Fito e seu contrabaixista. “Si Disney despertasse” , uma bela balada no estilo pop que o músico iria abraçar cada vez mais, usa de poesia e citações (Woody Allen, Kubrick, Walt Disney) para lamentar a substituição dos cinemas de rua de Rosário por shoppings e bingos. “Soy Un Hippie” é um rock bem humorado, que traz´, assim como na maioria das músicas do álbum, a ex-esposa de Fito e cantora de sucesso, Fabiana Cantilo, nos vocais de apoio, e fala, de forma divertida, dos conflitos do músico bicho-grilo com o mundo da fama. “Prefiriria Andar Borracho Em El Subte”. Outro sucesso! Um belo steel de Gringui Herrera e o acordeón de Tweety González, além da bela melodia e o piano elétrico de Fito, fazem de “Dejarlas Partir” outro grande momento de beleza com uma letra cheia de situações a outras músicas da carreira do cantor. “Lo Que El Viento Nuca Se Ilevo” é rock alto astral, que traz Fito assumindo a guitarra, mais uma citação ao Stones sessentista (“I Can’t Get No Satisfaction”) e encerra o disco, o circo, o filme nostálgico do músico na sua cidade natal de maneira positiva e alegre. Ao final da canção, o cicerone da commedia dell’arte reaparece para anunciar que o circo se vai. Mas assim como em “Sgt Peppers” anda não é o fim. “Nadas Del Mundo Real” aparece como uma humilde “A Day In The Life” com orquestra e filosofia para encerrar a viagem com a beleza merecida.
“Circo Beat” foi lançado em edição especial no Brasil, com três de suas músicas, “Mariposa Tecknicolor”, “She’s mine” e “Tema de Piluso” cantadas em português com a participação de Caetano Veloso, Djavan e Herbert Vianna em cada uma delas respectivamente, numa tentativa do cantor de lograr êxito no impenetrável mercado brasileiro (“É difícil você fazer sucesso com um trabalho num país que não ouvir alguém cantando em espanhol que não seja o Julio Iglesias”, disparou o cantor na época). O disco foi lançado com sucesso na Argentina, e embora não tenha obtido o êxito comercial do álbum anterior, continua sendo um dos mais bem sucedidos da sua carreira. Um disco emblemático de um artista genial num de seus melhores momentos.


(Leandro L.Rodrigues)
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Yes - Yes Album








O rock europeu tem suas referências inquestionáveis, e uma delas é o Yes - grupo seminal do rock progressivo inglês, que com o passar do tempo provou ser uma das referências do estilo e cravou em sua trajetória vários álbuns que sempre figuram em listas de melhores de todos os tempos. Um  desses registros é certamente “Yes Álbum”.
Lançado em 1971, é o terceiro registro da banda. E o  álbum é no mínimo irretocável. Não é pra menos, pois contava em sua formação com músicos que viriam a se tornar referências indiscutíveis em seus respectivos instrumentos. Uma fusão de genialidade talvez seria uma definição palpável para descrever o que se ouve em pouco mais de trinta minutos. A voz única de John Anderson aliada a guitarra sobrenatural de Steve Howe e a sincronia entre o baixo de Chris Squire e a bateria de Bill Brufford passando pelo teclado de Tonie kaye, engrossam um caldo já deliciosamente saboroso.
“Yours is No Disgrace” abre os trabalhos em alto nível e “The Clap” mostra o poderio das seis cordas comandadas por Steve Howe. “Starship Trooper” é daquelas viagens musicais que não precisariam acabar...não por acaso se divide em três partes, golpe certeiro!
“I’ve seen All Good People” é daquelas que grudam na alma. E “A Venture” e “Perpetual Change” fecham a bolacha em alto nível.
Esse disco é a “ponta do iceberg” na carreira desta seminal instituição da música britânica. Se você já tem o disco, ponha pra tocar no “repeat” e deixe sua sensibilidade se encarregar do resto. Boa viagem!


(Texto: Robério Lima)







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sábado, 27 de fevereiro de 2016

João Gilberto - João Voz e Violão








João Gilberto ao mesmo tempo que é considerado um dos baluartes da música e pilar definitivo da bossa nova, é também incompreendido por muitos que não reconhecem o alarde feito por entusiastas de  sua obra. Seu jeito sussurrado de cantar e a batida que revolucionou uma geração é visto como sem grassa por muitos que procuram uma resposta para tamanho prestígio. A verdade é que sua música é viciante e a cada audição a vontade é de ouvir mais e mais. E se na discografia do mestre todos os álbuns são referências máximas, vou ficar com “João Voz e Violão”.
Não por ser o melhor, mas por ter releituras inspiradíssima e interpretação impecável do mestre, esse álbum possui uma aura muito particular. Em pouco mais de trinta minutos João discorre sobre um repertório que conta com composições de Caetano Veloso (que é o responsável pela direção musical do disco) e Gilberto Gil – reverência do mestre à seus pupilos. As composições de Tom Jobim são recorrentes em sua carreira e “Chega de Saudade”, canção que imortalizou sua obra máxima, é indispensável quantas vezes seja regravada pelo rei da batida. João Gilberto ainda foi agraciado com o Grammy por esse disco, reconhecimento mais que providencial à lenda. Diante de tamanha beleza, o que nos resta é apreciar sem moderação o que a Bahia nos deu de mais pleno em termos musicais, pois a partir de João as ramificações foram as mais frutíferas. Vale lembrar que a modelo que ilustra a capa do disco é Camila Pitanga, que fazendo o sinal de silêncio, chama a atenção do ouvinte para que se atente somente a beleza da criação do mestre que parece estar tocando para cada espectador individualmente, tamanha sua precisão sonora. Mais uma obra indispensável para os que têm a música como combustível da alma!


(Texto: Robério Lima)

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James Brown - Live At Apollo (1962)








``So now, ladies and gentleman, are you ready for the star time?´´, pergunta o mestre de cerimônia e, diante da resposta afirmativa da platéia, apresenta ``Mr Dynamite`` e imediatamente a banda, formada por oito metais, duas baterias, guitarra, órgão e um baixo pulsante, ataca a instrumental ``The Scratch´´ transportando o ouvinte para a Nova Iorque do inicio dos anos 60.
Naquela noite fria de 24 de outubro de 1962, o presidente dos Estados Unidos, John F.Kennedy, acabara de anunciar o embargo à Cuba e as possibilidades da guerra se tornar quente começavam a aumentar. Naquele ano, James Brown fez 350 shows, o que lhe valeu o apelido de “o homem que mais trabalha no show bizz” , embalado pela seqüência de hits que havia enfileirado nas paradas de rhythm n’blues (um rótulo musical que a revista Billboard inventou para poder catalogar na sua parada os artistas que faziam uma música calcada no jazz e no blues, mas que não eram "vendáveis" ao público branco) e no fervor de suas apresentações. Fervor esse que, ele bem concluiu, seus discos não captavam. Era necessário um disco ao vivo. Um disco que mostrasse a todos os públicos no país inteiro do que James Brown e sua banda eram capazes num palco. As “inteligências” que dirigiam a King Records, gravadora do artista, se negaram a bancar o projeto. Segundo a privilegiada visão dos diretores, um disco ao vivo não seria vendável. Mas JB apostou no seu faro e resolveu bancar do próprio bolso. E o local escolhido para sua realização não poderia ser outro: o Apollo Theatre, o templo da música negra, situado na 125th street, no Harlem, onde o cantor já se apresentara desde 59, algumas vezes como headliner, e cuja platéia era famosa por sua exigência. 
Brown entra no palco, “Eu sabia que ia ser um daqueles dias”, disse ele em sua autobiografia sobre esse momento, sob aplausos dos 1500 privilegiados que estavam presentes na platéia, gritando em vibrato "You know I feel all right" e dá o tom para a guitarra de Les Buie dar inicio a “I’ll go crazy” e a banda, sob o comando do trompetista Lewis Hamilin, que havia ensaiado exaustivamente cada número nos ensaios e apresentações que antecederam a gravação, parte em ritmo frenético (diz a lenda que a multa que o Godfather aplicava aos músicos que erravam as notas, nessa ocasião estava multiplicada) em meio a síncopes e grooves marcantes e os gritos e falsetes do cantor. Sem tempo para respiro, antecedida por uma vinheta instrumental que servirá de ponte para o intervalo entre as primeiras músicas, a balada “Try me”, primeira canção do artista a figurar no topo das paradas, entra em cena com a bonita e marcante voz rouca e açucarada de Brown nos mostrando o quando há dele em cantores que se seguiram (Steven Tyler é um exemplo flagrante), a seguir o ritmo volta a subir e a versão do cantor para “Think” surge com baixo pulsante e um frenético solo de sax de St Clais Pinckney. Delírio total. O funk começava a tomar forma. “I don’t mind”, outra balada arrasadora, que ganharia uma versão no disco de estréia do The Who , surge com a guitarra melancólica de Les Buir e um belo trabalho de vocais do Famous Flames, banda vocal de apoio do cantor que brilha em praticamente todas as faixas e curiosamente não foi creditada na capa desse disco. Os ecos gospels de “Lost someone” e seus mais de dez minutos de viagem performática com Brown fazendo a platéia cantar, gritar e levando o ouvinte a usar a imaginação para tentar visualizar os gestuais e performances do cantor no palco a partir dos efeitos produzidos na platéia, serve como um atestado do talento de JB como showman e o domínio que ele exercia sobre o público. No órgão Bobby Byrd, grande parceiro na primeira fase da sua carreira (reza a lenda que a família de Byrd assumiu a responsabilidade sob Brown para tira-lo do reformatório para menores infratores em que ele se encontrava na adolescência), fundador do Famous Flames e co-autor da canção, "When I sing the little part that might sting in your heart, I wanna hear you scream", ordena o pastor Brown aos seus discípulos, no que é prontamente atendido. Essa é a faixa que divide os dois lados do LP, o lado A termina nos seus 4 minutos e o B começa a partir de então, e era nessa pausa que os Discs Jokeis, que passaram a tocar o LP inteiro nas rádios a pedido dos ouvintes, aproveitavam para inserir os comerciais. Uma versão editada desse número foi lançada como single após o sucesso do disco. “Please, please, please”, o primeiro single de sucesso do cantor, e que serviu de base para os ensaios iniciais da banda MC5, abre e termina o medley de sucessos que se segue e que serve como amostra da habilidade do artista em agrupar canções e manipular apresentações. “Night train”, o single de sucesso da época, surge abravisivo e a banda dá a impressão de sair do chão num clímax final. O trem noturno de Brown, a banda e os Flames parte intenso pelas ruas do Harlem rumo às estrelas. Nota 10. 
Missão cumprida: em pouco mais de meia hora de frenesi, entusiasmo, precisão, carisma e alta qualidade musical, James Brown desfilou a seu modo o amor e o desamor de uma época. E mudou para sempre a cara da música pop. O melhor disco ao vivo da história da música fonográfica já estava gravado! Uma vitória da ousadia e da criação contra a mesmice e o pragmatismo. Um pouco de pressão, alguns cortes de partes que só funcionavam para quem estava vendo-o dançar no palco e a King resolveu lançar cinco mil cópias. Não deu conta. O disco foi para o segundo lugar da parada geral da Billboard. James Brown invadiu o maisntream. E nas paradas ficou por 66 semanas. Depois disso, ainda inventou o funk, fundou (ao lado do sempre presente Bobby Byrd) sua própria companhia de produção, gravou outros discos históricos (voltou a gravar mais dois no Apollo), passou por altos e baixos na carreira, se envolveu com questões sociais, prisões, deu à luz a uma série de "Browns" espalhados pelo mundo e se tornou uma lenda máxima da música. 
Hoje, mais de meio século depois daquela noite tensa, a Guerra Fria já derreteu, Estados Unidos e Cuba já reataram relações, os brancos já formam 10% da população do Harlem, James já desencarnou e o Apollo Theatre pertence ao Estado. Mas o explosivo “Live at Apollo” ainda permanece firme no panteão dos discos históricos. Uma prova inconteste da genialidade de um artista único! 
Right on! Are you ready?


(Texto: Leandro L. Rodrigues)



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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cassia Eller - Com Você Meu Mundo Ficaria Completo (1999)








Em 1999, Cássia Eller acabava de vir de um projeto vitorioso. A parceria com Wally Salomão no disco e no show em homenagem a Cazuza, “Veneno Antimonotonia “ , dera certo, o que lhe rendera, além do respeito da crítica, que já enxergava nela uma das maiores cantoras daquela geração, uma maior abrangência de público. Mas seu mundo ainda não estava completo. Faltava-lhe um parceiro musical que lhe abastecesse o repertório, lhe ajudasse a direcionar melhor sua carreira a partir de então. Um parceiro que pudesse chamar de seu. Na mesma época, Nando Reis começava a perseguir horizontes maiores do que a carreira com o Titãs. Com um bem sucedido disco solo, "12 de janeiro" (lançado em 1995) e composições vitoriosas nos discos do Skank, Cidade Negra e Marisa Monte, sua habilidade como hitmaker já começava a tomar vulto, mas ele ainda não tinha uma intérprete na mão. Aquela para a qual o tom das suas músicas soasse exato. Nessas condições e com a afinidade musical e de personalidade entre os dois, o encontro deles só poderia resultar numa das parcerias mais bem sucedidas do pop brasileiro.De aplique nos cabelos, encarando a lente da câmera de Gringo Cardia (que também foi responsável pelo belo ensaio fotográfico que consta no encarte) e vestindo apenas uma camiseta de um clube de natação de Nova Jérsei - que virou objeto de culto entre seus fãs – e uma calcinha, a foto na capa de “Com você... meu mundo ficaria completo” já mostra uma Cássia diferente das de seus outros discos até então. Se bem que a mudança já foi sentida pelo público antes, pois antecedendo o lançamento do álbum, “O segundo Sol” invadiu as rádios e a MTV. Com um belo arranjo de cordas de Luiz Brasil – responsável pelos arranjos do disco – e uma interpretação acima da média de Cássia, o pop perfeito de Nando Reis, com sua letra enigmática, cuja indução profética combinava com as conversas sobre apocalipse que rondavam o ano 2000, tornou-se sucesso absoluto. No clip, que rodou à exaustão, a cantora aparece com a mesma caracterização da capa do disco. Finalmente, a vez dela chegara de verdade. A canção, que abre o álbum, superou o sucesso de "Malandragem" e firmou definitivamente seu nome no mainstream, e se em seus discos anteriores já constavam duas canções de Nando, esse era o primeiro golaço com a parceria realmente efetivada. “Não tem explicação”, conclui a letra de um dos grandes sucessos do ano, cujo sentido seus ouvintes não se cansam de tentar precisar. Se a possibilidade de um mundo completo começa com a sugestão de dois sóis, “Mapa do meu nada” vem a seguir cheio de dedos em becos cheios de bêbados, estradas cariadas e placas de contra-mão. “Não sou desses homens”, canta ela cheia de ironia a letra de Carlinhos Brown, sob o baixo pulsante de Fernando Nunes num rock funkeado que conta com a participação de Jussara Silveira nos vocais. O violão preciso de Luiz Brasil dá o tom e o Rio de Janeiro de batidão e pegação surge como cenário para “Gatas extraordinárias” ( mais uma que se tornou sucesso!), presente saído da privilegiada cabeça de Caetano Veloso para criar pérolas pop, canção que evidencia, com seus violões , a ótima percussão de Lanlan, a flauta de Zé Canuto e o cantar suavizado de Cássia, a influência que o álbum “Cor de Rosa e Carvão”, de Marisa Monte, teve na concepção desse trabalho. “Você não canta, mãe, você berra. Quem canta é a Marisa Monte”, disse-lhe o filho Chicão, na única vez em que a opinião de alguém teve peso no seu trabalho. “Um branco, um xis, um zero”, parceria de Pepeu Gomes com Arnaldo Antunes e Marisa Monte que resultou na melhor letra do disco, traz o ex-Barão Vermelho Maurício Barros no Hammond (que também toca em “O segundo Sol) e João Viana, filho de Djavan, na bateria e uma pegada que lembra mais os tempos da Cássia roqueira. “Só o cheiro do seu cheiro não consigo deixar para trás, impregnado o dia inteiro nessa roupa que eu não tiro mais”, conclui a cantora com o sacarsmo que sempre lhe foi peculiar antes da guitarra de Walter Villaça fazer um encerramento à la Nirvana. A faixa título, uma canção típica de Nando Reis, que parece até ter saído do seu "12 de janeiro", vem em seguida mostrando que os problemas cotidianos não são nada perto do amor. E quem não tinha percebido até então, com essa canção vai perceber que esse é um disco sobre o amor. “Palavras ao vento” começa com um belo Hammond de Paulo Calasans e é mais uma balada pop, parceria de Marisa Monte, dessa vez com outro novo baiano, Moraes Moreira, que virou clássico no repertório da cantora. Curiosamente o sucesso dessa música, que tem todos os elementos para ser um sucesso radiofônico e uma bem-sucedida trilha de novela (já foi de mais de uma) só aconteceu depois da morte da intérprete. Acordeón, xequerê, zabumba e triângulo e “Aprendiz de feiticeiro”, inédita de Itamar Assumpção, mostra que a Cássia fã da Vanguarda Paulistana, embora esteja mais pop, ainda está firme e presente. O belo acordeom de Chico Chagas marca presença embelezando também “Pedra Gigante”, inspirada na Pedra da Gávea, presente de outro tropicalista, Gilberto Gil, numa de suas belas canções de contemplação e amor à natureza, em que Cássia divide os vocais com sua mãe Nancy Ribeiro. O rock ressurge com “Infernal”, música com a qual o autor Nando Reis veio a batizar sua futura banda, e uma declaração de como a parceira tornou seu mundo completo. “Porque a era do futuro você trouxe pra mim, infernal!”, diz a letra esperta antes da levada rock, com baixo, guitarra e bateria fazendo um balanço arrasa quarteirão, desembocar um poderoso trabalho de metais. “Maluca”, composição do desconhecido compositor de Niterói, Luiz Capucho, fala da beleza das rosas e conta com um belo arranjo de cordas (Luiz Brasil acertou em todas nesse trabalho),a participação da família Morelenbaun e Cassia no cajón . O violão de Cassia dá a introdução e “As coisas tão mais lindas” dá ao disco outro momento de beleza pop. Mais uma de Nando Reis, reza a lenda que o projeto inicial da cantora era gravar um disco inteiro com músicas do novo parceiro, que também atua como produtor do disco, a bela balada é um dos pontos altos de um disco que não tem baixos e daria uma bela canção de encerramento. Mas “Esse filme eu já vi” fica responsável pelo desfecho do álbum. Com um clima jazz de fim de noite, a canção de Luiz Melodia, mais um compositor da época “Marginal” que marca presença, completa o trabalho com uma Cássia descontraída se mostrando mais experiente, mais completa e avisando: “Tô na rua!”. A fera estava domada, mas não completamente.Sem arranjos equivocados, sem regravações de hits, com um repertório inédito e de alto nível, que passeia através de seus compositores por alguns dos principais momentos do pop brasileiro, e uma produção impecável, “Com você... meu mundo ficaria completo” é de longe o disco mais bem resolvido artisticamente da cantora. Com ele, sua carreira ficou completa. Depois disso, ela ainda viria a se consagrar se apresentando no Rock in Rio, gravaria um acústico para MTV, que se artisticamente não acrescentou nada na sua carreira, serviu para eleva-la ao status de estrela, entraria numa maratona de shows e apresentações e morreria prematuramente aos 39 anos. A cantora que estreou em discos junto com a década e se tornou uma das suas vozes mais emblemáticas, terminava o período presenteando-a com um dos melhores discos gravado nesse tempo. Os anos 90 enfim estavam completos!



( Texto: Leandro L.Rodrigues)
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Djavan - Alumbramento (1980)







Djavan terminou a década de 70 como um compositor em ascensão. Depois de um destacado segundo lugar no Festival da Abertura em 1975, com "Fato Consumado", dois belos álbuns gravados e músicas interpretadas por cantoras do primeiro time como Nana Caymmi, Elis Regina e Maria Bethânia (a faixa título do vitorioso disco "Álibi" - o primeiro disco gravado por uma mulher a ultrapassar um milhão de cópias vendidas - é dele), o compositor tinha o respeito de seus pares, mas seu nome e sua voz eram ainda desconhecidos do grande público. Por isso, quando entrou em estúdio para gravar seu terceiro álbum, o ex-meio-campo do CSA, que não se profissionalizou no futebol porque queria viver de música, estava disposto a entrar para a seleção brasileira da música.
Diferente dos trabalhos anteriores, "Alumbramento" vem recheado de parcerias. O alagoano estava disposto a misturar, ampliar o alcance de suas composições e se integrar ao time dos grandes. O disco abre com chave de ouro: "Tem boi na linha", um samba sincopado, típico do Djavan do início da carreira, com letra do habilidoso Aldir Blanc falando das viagens cotidianas dos moradores dos grandes centros e citando em sua letra algumas estações de trem da Grande Rio. "Meu vai-e-vem parece o vai-e-vem do trem", canta Djavan, sob um poderoso arranjo e um naipe de metais que conta com Mauro Senise, Leo Gandelmann, Serginho Trombone, Bidinho e Victor Assis Brasil que iguala os balanços e sons da canção ao balanço e som do trem. "Sim ou não" é um blues bem típico do estilo que o músico seguiria nos próximos anos, com o baixo de Sizão Machado e um belo solo de piano do produtor Eduardo Souto Netto se destacando ao lado de beleza da voz do cantor. Logo a seguir, o dedilhado do violão de Djavan dá início à primeira obra-prima do disco: "Lambada de serpente" chega trazendo o seu lado nordestino/cantador com uma bela viola de 12 cordas tocada por Ari Piassarollo, o acordeon de Gilson Peranzetta, um magistral coro popular e uma primorosa letra do poeta Cacaso falando de traição e desilusão. "Lambada de serpente, a traição me enfeitiçou". Golaço! Na sequência, samba e Chico Buarque, de voz presente, dividindo os vocais da deliciosa e bem-humorada "Rosa", uma de suas grandes letras da década de 80, cheia de jogos de palavra e enganos."Artista, é doida pela Portela
Ói ela,Ói ela, vestida de verde e rosa, a Rosa." Nota dez. Grande tabelinha de dois talentos ímpares da MPB em mais um clássico! "Dor e prata" encerra o lado A com arranjos de Oscar Castro-Neves e uma letra característica do compositor que rodopia em torno da bela melodia. O Lado B se inicia com um dos grandes momentos da carreira do músico e do pop brasileiro pós-anos70: "Meu bem querer" surge com os arrebatadores arranjos de Wagner Tiso (responsável também pela regência da orquestra e o belo piano), sua melodia marcante e letra sofrida, direta e sem metáforas, algo raro em seu estilo, cantada de maneira emocionada pelo seu compositor, que também ataca no ovation e acariciada pela guitarra blues de Ari Piassarollo,. Clássico instantaneo, a música entrou para a trilha da novela "Coração Alado" (numa época em que as trilhas de novela eram capazes de determinar o destino de muitas músicas) e se tornou rapidamente um sucesso popular.O iluminado compositor agora se tornava também uma figura conhecida das massas. Citada como música do ano, a canção tornou-se um marco na carreira do cantor, que chegou a grava-la algumas outras vezes, mas sem repetir o exito da gravação original. Na sequência, "Aquele um", mais uma parceria com Aldir, tem uma letra típica dos sambas da dupla Bosco/Blanc, mas conta com um equivocado clavinete tocado por Luiz Avellar. Os anos 80 estavam começando. "Alumbramento", faixa-título, é mais uma parceria com Chico Buarque, uma balada bem no clima Djavan que termina com a sua marcante vocalização em falsete. "Triste baía da Guanabara", parceria de Cacaso com Novelli (presente também tocando um excepcional contrabaixo) fala também de desilusão, numa brincadeira com "triste Bahia" de Gregório de Mattos (e que Catano Veloso havia musicado magistralmente no clássico "Transa") e um belo trabalho de intérprete do cantor. "Sururu de capote", música que daria nome à banda de apoio do artista, fecha o disco em grande estilo. Num clima parecido com o da faixa de abertura, o contagiante samba traz o violão de Djavan e sua peculiar divisão integrados ao belo trabalho da banda (com Eduardo Souto Netto no piano elétrico e Chico Batera na percussão e dessa vez com o clavinete de Avellar bem colocado) e letra com falas e costumes típicos do Nordeste que encerra concluindo: "Em São Paulo é bom, mas como lá eu não vivo. Vou pegar um ônibus, vou rever meu umbigo". 
"Alumbramento" é um disco inspirado e com uma certa dose de tristeza. Numa carreira feita com cores, pode-se dizer que é o disco prata (dor e prata) de Djavan. Do trem de abertuta ao ônibus do encerramento, o compositor, de semblante triste e caminhar pensativo na capa, relatou, entre sambas peculiares e baladas cheias de estilo, suas tristezas e desilusões amorosas, no interior e nos grandes centros. Decidiu-se por voltar e rever seu umbigo, não voltou. Nem havia como. O alagoano agora já havia gravado sua obra-prima, se consagrado como compositor popular e reconhecido como intérprete. Ainda no mesmo 1980 gravaria outro disco clássico pela Odeon (o obrigatório "Seduzir") e no ano seguinte assinaria contrato com a CBS (Sony) partindo para uma carreira de luz internacional, se encantando com o pôr-do-sol em Los Angeles e conquistando fãs do naipe de Stevie Wonder, Quincy Jones, Al Jarreau, entre outros, tornando-se mundialmente reconhecido como um dos grandes craques da vitoriosa música brasileira.
Mas é no alumbramento se sua fase inicial que se encontra a força de seu poder criativo.



(Texto: Leandro L. Rodrigues)
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