A ``família``, teve e ainda tem papel de destaque na vida
de João Francisco Benedan, pois ao mesmo tempo em que o levou ao extremo de
atos inconsequentes, foi também o responsável por sua ressurreição. Com uma
narrativa bastante informal, temos sensação de ouvi-lo narrando suas histórias
ao vivo, com aquelas gírias e palavrões, característica peculiar de um personagem
tão controverso. E quando o leitor adentra ao universo de "Viva Lá Vida
Tosca" percebe que na verdade, a família é o grande protagonista do livro.
João Gordo, em parceria com o jornalista André Barcinski, dá ao leitor,
paramento realista e ao mesmo tempo delicado da vida de um dos grandes
personagens da contracultura brasileira. Mesmo os que não conhecem o Ratos de
Porão e que não possuem a mínima intimidade com a história do João Gordo, ainda
assim pode (e devem) ler este livro. Talvez o "acerto de contas" de
JG terá peso substancial na vida de quem ler o livro. O pai de família é
surpreendentemente revelado através de uma infância e adolescência problemática
e movida por atos e substancias questionáveis. Mesmo assim, não há um discurso
moralista embutido em suas palavras e o tom honesto de João Gordo, mostra ao
público uma faceta pouco conhecida pelos que insistem em dizer que ele ``se
vendeu´´ ou que ``traiu o movimento´´. Não posso terminar esse texto sem
mencionar o belíssimo prefacio escrito por Fernanda Young, tão revelador e
emotivo. De ``junkie`` à ``vegano``, Gordo é a prova de que sempre há
esperança"!
Quando sua polemica crônica sobre
a morte do cantor (!) Cristiano Araujo foi ao ar pela Globo News , o jornalista
Zeca Camargo foi massacrado nas redes sociais e teve seu nome envolvido em uma
série de discussões acaloradas, questionando sua falta de respeito com o artista
(!!) e sua total insensibilidade com relação a memória do falecido. Na verdade
o que pude perceber nesse episódio é que a maior parte do publico brasileiro
esta acostumado a ``endeusar´´ personagens que possuem relação praticamente
nula com o que pode se considerar relevante no mundo da musica. Tendo em vista
que esse tipo de produto é a cópia da cópia da copia, fica difícil identificar
quem são os milhares de ´´Cristianos`` que surgem a cada dia. Provavelmente
Zeca Camargo não teve a intenção de ofender a quem quer que seja. Na verdade,
isso pode ter sido um reflexo de sua experiência com inúmeros artistas que
fazem parte de um ``circo mundial`` onde se concentra a ``nata´´ do mundo da
musica. Isso pode ser conferido no seu livro ´´De A-HA a U2 - Os Bastidores Das Entrevistas Do Mundo Da
Música´´, lançado no ano de 2006 pela Editora Globo. E como o nome já sugere,
podemos conhecer os bastidores de algumas
de suas mais importantes entrevistas realizadas por emissoras de TV ou mídia
impressa. São vários artistas ou grupos
que aparecem no decorrer de quase quinhentas paginas para que o leitor
tenha uma pequena amostra de como funciona o show bussiness. Certamente não é
um privilégio somente de Zeca Camargo, mas fica evidente sua identificação com
a musica em suas mais variadas vertentes, pois além das já mencionadas
entrevistas, Zeca também trás a tona suas inquietudes quando procura sair do
mainstream transitando por musicas de países não tão tradicionais e muitas
vezes exóticos em nossa visão ocidental. Podemos conferir essas experiências ao
final de cada crônica, onde os textos vem descritos com o titulo sugestivo de
´´Perdido Em Música´´. Bom, o livro é
recomendado a todos que querem compreender de forma descompromissada o que
acontece nos bastidores da musica POP. Enquanto isso os fãs de Cristiano Araujo
ainda tentam entender (ou não)o significado do livro de colorir.
O Sepultura já foi considerada uma das maiores bandas de heavy metal do mundo, sendo reverenciada por lendas da grandeza de Ozzy Osborne e Metállica. Um dos responsáveis por essa enorme façanha responde pelo nome de Max Cavalera , que agora traz aos seus fãs e leitores em geral um apanhado de sua história, devidamente documentada em sua biografia, lançada no ano de 2013. Ao contrário do que muitos esperam, não há polêmicas relevantes com relação à traumática saída do Sepultura. Aliás, em muitos momentos descreve de forma muito carinhosa momentos vividos com os antigos companheiros de estrada.
O livro foi escrito em parceria com Joel Mclver, que também foi o responsável por biografias de Slayer e Motorhead e possui todas as credenciais para desenvolver esse tipo de trabalho. E se alguém tem dúvida do respeito conquistado por Max, vai se surpreender já no prefácio escrito por David Ghrol que é fundador e líder do Foo Fighters e foi o baterista do Nirvana. Max não abre mão desse prestígio, como podemos comprovar no decorrer da leitura com depoimentos de gigantes como Mike Paton ( Faith No More), David Vicent ( Ex Mórbid Angel) e muitos outros que além da identificação com o artista o tem como grande amigo. Max não se faz de vitima ou herói para descrever os anos de glória vividos com o Sepultura da criação do Solfly e Cavalera Conspiracy, além da participação constante em outros projetos. O que podemos constatar ao final da leitura do livro é que o frontman antes de ser o grande artista que se tornou, é um ser humano que teve que lidar muito cedo com a dor da perda e muitas frustrações que cruzaram seu caminho. Assuntos espinhentos como os abusos com drogas e álcool são tratados de forma bastante lúcida. My Blood Roots, referencia ao maior clássico de sua carreira, é também um exercício de reflexão e acima de tudo uma ótima oportunidade para mostrar uma faceta que transcende o artista. Livro altamente recomendado!
Comecei
a ter contato com o pré-modernismo através dessa obra. Nela, Lima Barreto
utiliza a ironia e o sarcasmo para denunciar as mazelas das quais o Brasil era
vítima. Com um protagonista para lá de tresloucado e dono de um patriotismo
doentio, Lima Barreto descreve as aventuras e os dessabores do Major Policarpo
Quaresma. Seu patriotismo atinge o ápice da loucura, quando o mesmo propõe que
todos os brasileiros aderissem à língua Tupi, conclusão essa, depois de ter
estudado minuciosamente nossos nativos. A partir daí o título do livro passa a
fazer enorme sentido. Há também, inúmeras personagens interessantes das quais,
Lima Barreto utiliza para descrever a loucura, o egoísmo, o egocentrismo, a
covardia e o amor ao próximo.
O
triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado em 1916, mas já havia sido
levado ao público através de folhetins publicados em 1911.
Fica
aqui a dica para quem quer ter contato com o que há de melhor em nossa
literatura.
A Editora
Objetiva idealizou um projeto chamado Plenos Pecado, onde cada um dos sete
escritores selecionados escreveria um romance tratando dos sete pecados
capitais. Coube ao João Ubaldo Ribeiro a missão de escrever um livro sobre a
luxúria. E pasme. Ele foi ao extremo. Tanto é que esse livro foi censurado em
Portugal.
João Ubaldo
Ribeiro narra as aventuras eróticas de uma mulher do alto de seus 68 anos.
Aventuras essas que chocariam até o maior dos promíscuos. Mas a misteriosa
mulher se vê ao fim vítima de um aneurisma cerebral. Detalhe: segundo o
escritor, ela de fato existiu e ainda por cima lhe entregou suas confidencias
através de uma fita gravada. Não sabemos se isso é verdade ou se é um jogo
literário de João Ubaldo.
O livro de
fato é bem pesado para os que se consideram puritanos. Há relatos de incesto
praticado pela confidente e por seu irmão. Nem o tio escapa. Há também sexo
grupal. Em suma, é putaria de cabo a rabo
narrada em ritmo alucinante de forma magistral.
Tive contato com essa obra prima através de um grande professor de língua portuguesa, chamado Zaqueu. Aliás, não foi apenas esse livro que ele nos apresentou em sala de aula, ``Amor Nos Tempos de Cólera e ``Cem Anos De Solidão´´ fizeram parte dessa trilogia de descobertas.
``Crônica de Uma Morte Anunciada´´ foi publicado em 1981. Garcia Marques nos brinda com uma narrativa envolvente. O enredo é um prato cheio para Garcia Marques destilar todo o seu conhecimento da estrutura jornalística. O livro é narrado em primeira pessoa, mas o narrador não é onisciente, pois ele escreveu sua crônica, colhendo informações, opiniões e lembranças dos habitantes da vila de Riohacha.A crônica gira em torno das horas que antecederam o assassinato de Santiago Nasar, filho de um rico emigrante árabe que foi morto a facadas pelos irmãos Pedro e Pablo Vicário para honrar a família do vexame de ter tido sua irmã Ângela Vicário devolvida após a lua de mel com o misterioso forasteiro chamado Bayardo San Román. Santiago Nasar é tido como o culpado pela desonra, fato esse confessado pela própria Ângela.
Abaixo; um trecho da magistral narrativa desse gênio chamado Gabriel Garcia Marques.
"Assustei-me quando o vi pela frente", disse-me Pablo Vicário, "porque me pareceu duas vezes maior do que era”.Santiago Nasar ergueu a mão para aparar o primeiro golpe de Pedro Vicário, que o atacou pelo flanco direito com a faca na perpendicular.
- Filhos da puta! - gritou. A faca atravessou-lhe a palma da mão direita, e mergulhou de imediato até ao fundo do costado.
Toda a gente ouviu o seu grito de dor.
-Ai minha mãe!
Pedro Vicário puxou a faca para fora com o seu pulso rude de magarefe, e assestou-lhe um segundo golpe quase no mesmo lugar. "O estranho é que a faca voltava a sair limpa", declarou Pedro Vicário ao juiz instrutor. "Eu já lhe tinha furado pelo menos umas três vezes e não havia nenhuma gota de sangue ”.Santiago Nasar torceu-se com os braços cruzados sobre o ventre depois da terceira facada, soltou um gemido de bezerro, e tentou virar-se de costas. Pablo Vicário, postado à sua esquerda com a faca recurva, assestou-lhe então a única facada nas costas, e um jorro de sangue a alta pressão encharcou-lhe a camisa. "Cheirava como ele", disse-me. Três vezes ferido de morte, Santiago Nasar enfrentou-os novamente, e apoiou-se de costas contra a porta da mãe, sem a menor resistência, como se quisesse tão-só ajudá-los a acabar com ele em partes iguais. "Não voltou a gritar", disse Pedro Vicário ao juiz instrutor. "Pelo contrário: pareceu-me a mim que se ria." Os dois continuaram a esfaqueá-lo de encontro à porta, com golpes alternados e fáceis, flutuando no remanso deslumbrante que encontraram do outro lado do medo. Não ouviram os gritos da vila inteira espantada com o seu próprio crime. "Sentia-me como quando se vai à carreira num cavalo", declarou Pablo Vicário. Mas rapidamente despertaram ambos para a realidade, porque estavam exaustos, e apesar disso parecia-lhes que Santiago Nasar não iria cair nunca. "Porra, primo", disse-me Pablo Vicário, "sabes lá como é difícil matar um homem. Não fazes idéia!" Tentando acabar de uma vez por todas, Pedro Vicário procurou o coração, mas procurou-o quase na axila, onde o têm os porcos. De fato Santiago Nasar não caía porque eles estavam a escorá-lo à facada de encontro à porta. Desesperado, Pablo Vicário deu-lhe um talho horizontal no ventre, e os intestinos afloraram com uma explosão. Pedro Vicário ia a fazer o mesmo, mas o pulso torceu-se-lhe de horror, e então deu-lhe um talho extraviado na coxa. Santiago Nasar ficou ainda um instante apoiado contra a porta, até que viu as suas próprias vísceras ao sol, limpas e azuis, e caiu de joelhos.
Eu já estava paquerando esse livro algum tempo. Não havia lido ele por relaxo, mas eu sabia de sua importância na literatura brasileira. O que eu não sabia, era que eu iria me divertir muito ao lê-lo. Foi uma das leituras mais prazerosas que tive. Comecei lendo-o na fila do Poupa Tempo. Havia cinquenta e oito pessoas na minha frente. A princípio pensei até em desistir do meu objetivo, que era renovar meu RG. Sentei-me num banco de madeira junto de todas essas pessoas que haviam chegado antes de mim e enquanto esperava uma resolução do que eu faria, abri o Memórias de um Sargento de Milícias e comecei a ler. Confesso que o livro já me pegou no primeiro parágrafo. Dali a diante, percebi que o atendimento era bem ágil e confesso que aquela tarde estava tão prazerosa que passei a torcer para que o atendimento fosse mais moroso. Enfim, sai de lá com a metade do livro lido. As páginas restantes li em duas noites, para me deliciar mais.
Memórias de um Sargento de Milícias foi escrito por Manuel Antônio de Almeida, entre 1852 e 1853. A princípio o livro foi publicado em capítulos no Correio Mercantil. Nessa época, Manuel Antônio de Almeida utilizou o pseudônimo de Um Brasileiro. Memórias de um Sargento de Milícias narra a saga do menino Leonardo (Que viria a se tornar o Sargento de Milícias). Além de Leonardo, há inúmeros personagens interessantes como o Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça, pais de Leonardo, o compadre e a comadre que defendem com unhas e dentes o Leonardo e a Luisinha, que aos olhos de Leonardo era completamente desengonçada, mas com passar do tempo torna-se sua grande paixão.
Essa é uma breve dica sobre essa obra que foi e ainda é uma das principais produções literárias do Brasil no Século XIX.
Um dos nomes mais conhecidos da literatura
nacional, Jorge Amado, tem sido muitas vezes desprezado em alguns meios
acadêmicos por ser considerado um best-seller e por, segundo alguns entusiastas
do modernismo, focar a sua obra na Bahia e ter idealizado um tipo caricato do
baiano. Confesso que por muito tempo estive contaminado por este pensamento,
porém ao entrar em contato com a obra desse grande autor percebi que a sua
criação literária vai muito além das adaptações feitas para a televisão de
alguns de seus romances.
Em capitães da Areia, mais uma obra
recentemente adaptada para o cinema, o autor aborda temas surpreendentemente
atuais, embora o livro tenha sido escrito em 1937. O assunto e as questões
sociais que o livro explora em profundidade são os mesmos da “cidade da Bahia”
e de muitas outras cidades, do Brasil e da América Latina.
Este romance nos comove e faz pensar nas
crianças desvalidas que vivem nas ruas das grandes cidades, abandonadas a sua
própria sorte, quase todas órfãs de pai e mãe, filhos da miséria e do abandono.
Jorge Amado construiu um microcosmo ficcional. Os personagens mais relevantes
são meninos de oito a dezesseis anos que moram num velho trapiche abandonado no
cais de Salvador, a “cidade da Bahia” que eles tanto conhecem em suas andanças
e onde vivem atiradas à marginalidade, roubando e cometendo pequenos delitos
para sobreviver e, quando detidos, são submetidos à humilhação, ao castigo e a
tortura.
Este
grupo de desvalidos, conhecidos na cidade como Os Capitães da Areia, é
visto pela sociedade local com receio e é tratado pelo Estado como um mal o
qual deve ser eliminado. Porém, a
narrativa da vida de cada um dos capitães da areia, todas marcadas pelo
abandono e pela miséria, vai revelando ao leitor que a sociedade que os teme e
os despreza e a mesma que os criou. Apesar de situar suas narrativas sempre no
mesmo espaço geográfico e cultural, no caso a Bahia, Jorge Amado utiliza este
espaço e seus personagens típicos para abordar questões universais.
Os meninos que habitam o velho trapiche
dividem uma mesma realidade e buscam sobreviver a ela de diferentes formas: um
faz uso de sua deficiência física para comover famílias que o ajudam e que
terão seus bens roubados pelo grupo, outro busca conforto na religião, através
da qual busca redenção para seus pecados e que conta com a ajuda de um padre
para seguir a sua vocação. O destino de alguns desses meninos também será
diverso: um entra no cangaço, movido pelo seu desejo de vingança, outro entra
na luta política, enquanto outro, o único letrado do grupo, segue sua vocação
artística e torna-se pintor, retratando em suas obras a realidade da qual fez
parte, Porém a grande maioria deles continua nas ruas a espera de um fim
incerto.
Outro aspecto importante da obra é o lado
humano dos personagens o qual é abordado em profundidade, revelando os desejos
e angústias que são não só daqueles personagens desvalidos, mas de todo ser
humano e que são encarados e vividos de acordo com a realidade de cada um.
Enfim uma obra que merece ser lida e relida na qual encontramos as marcas
literárias que fizeram de Jorge Amado um
dos nomes mais representativos de nossa literatura. (Texto: Nilton Aquino)
Esta aí
um grande conto escrito por uma renomada e imortal (membro da ABL desde 1985)
escritora. Nesse conto, Lygia faz uso de uma linguagem concisa, tornando-o bem
dinâmico. Ela também faz com que o leitor observe os fatos bem de perto. Venha
ver o por do sol é narrado em terceira pessoa, ou seja, o narrador é
heterodiegético (O narrador não é personagem da história), mas tomamos
conhecimento dos personagens através dos diálogos entre eles, exceto sobre suas
características externas, que são descritas pelo próprio narrador.
Venha ver
o por do sol, relata o último encontro entre os ex-namorados Ricardo e Raquel.
Ricardo após inúmeras tentativas, finalmente consegue convencer Raquel a
encontrá-lo. Só que Raquel se surpreende ao constatar que o endereço marcado é
em um cemitério abandonado. Ele logo contorna a situação alegando que lá foram
enterrados seus entes queridos e que sempre ao visitá-los ficava deslumbrado com
o por do sol que era proporcionado por aquele lugar. Ela a contragosto resolve
então conhecer o local e durante o percurso resiste às investidas de Ricardo
desdenhando-o enquanto enaltece com inúmeros superlativos seu
atual affair. Nesse momento, o narrador começa a dar sinais de que as intenções
de Ricardo não são das melhores. A tensão já começa a pairar somando-se com
aquela paisagem soturna. Não há sequer sinal de vida no recinto. Eles chegam ao
seu destino e Ricardo convida Raquel a descer as escadas da catacumba e sem ao
menos esperar, Raquel se vê presa por Ricardo que a abandona a própria sorte
naquele espaço mórbido.
Vale
lembrar que há um intertexto entre Venha ver o por do sol e Barril de
Amontillado, conto escrito por Edgar Allan Poe, pois ambos tratam dos temas
vingança e morte, através do abandono de suas vítimas em lugares fúnebres sem
contato com qualquer testemunha ocular.
Enquanto Agonizo é o título do livro escrito por William Faulkner (vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1949). Ler esse romance foi sem dúvida alguma o maior desafio que tive em se tratando de literatura, pois só consegui concluí-lo na terceira tentativa, nas duas primeiras eu acabei por me perder em sua magistral narrativa. Até então o livro mais difícil para mim havia sido a Hora da Estrela de Clarice Lispector, mas o li até o fim logo de primeira.
Enquanto Agonizo foi publicado em 1930. Faulkner se distanciou da aristocracia sulista americana e focou-se em personagens mais humildes. Ele descreve com maestria a saga da família Bundren, onde a matriarca Addie Bundren que está a um passo da morte, assiste por uma janela Cash, um dos seus cinco filhos construindo seu caixão. E é após o falecimento da mãe que o livro engata mesmo. Começa aí uma aventura daquelas de tirar o fôlego. A família se vê obrigada (na verdade quem se vê obrigado é o pai) a cumprir o desejo de Addie que é ser enterrada em sua cidade natal. Não vou revelar muito sobre o livro (se eu penei por que vou dar tudo de mão beijada?), mas só para se ter um gostinho: chuva torrencial, pontes destruídas, o corpo da mãe sendo transportado em cima de uma carroça durante alguns dias (imagine o cheiro) e um dos filhos com uma perna putrificada em decorrência de um acidente. Tudo isso narrada de uma maneira extraordinária por Faulkner. Os capítulos tem o nome dos personagens e eles nunca falam sobre si mesmo. É como se o leitor fosse levado à mente de cada um, portanto o livro é narrado em primeira pessoa (pessoas).
Bom, fica aí a dica de um romance que foi eleito um dos cem melhores romances em inglês do século XX.
Há dias que
me cobram um novo texto a ser publicado nesse espaço, faz um bom tempo que não
publico nada por aqui, não por falta de vontade, mas por razões alheias a minha
vontade.Não diria que estou passando por um ótimo momento em minha vida, nem por
isso vou escrever sobre como a vida é injusta ou descrever alguma visão
pessimista sobre determinado assunto.Portanto não escreverei sobre Kafka e o
incompreensível que nos aprisiona e que pode nos levar a um fim trágico,
tampouco vou usar um momento de instabilidade para pregar alguma visão
religiosa(o que não tenho)nem recomendar o último best seller de autoajuda, o
que não faria nem com o meu inimigo;afinal há formas mais eficazes de tortura.
Mesmo no momento em que escrevo ainda não sei sobre o que escreverei, já que
tenho muito a dizer e tão pouca inspiração para fazê-lo de uma forma que valha a
pena ser lido. Sabemos que grande parte do que é aqui publicado aborda o mundo
da música, porém hoje quero falar de música mas sem falar de música(calma não
vou "caetanear", pelo menos espero que não). Numa rápida reflexão sobre o estado
emocional em que me encontro me veio a lembrança um autor, uma obra, várias
obras e consequentemente a dificuldade de se contar a sua própria história, uma
angústia semelhante a vivida pelo narrador de uma das mais importantes obras da
literatura brasileira: Grande Sertão:Veredas do escritor mineiro João Guimarães
Rosa. Nessa obra prima temos uma narrativa que se constrói a partir do diálogo
entre o ex-jagunço Riobaldo e um interlocutor que jamais tem a palavra e cuja
fala é apenas sugerida, nesse "diálogo monológico" o velho Riobaldo narra a
histórias de vingança, violência, amores e perseguições, tudo isso entremeados
de profundas reflexões sobre o ser e a condição humana. Os demais personagens
falam pela boca de Riobaldo que se vale de um estilo de narrar e de
características linguísticas individuais, Guimarães Rosa usou não só a linguagem
simples do sertanejo como a misturou com uma linguagem extremamente erudita que
dominava, tudo isso para demonstrar que a cultura popular não só não é inferior
a erudita como esta é vazia quando não reconhece o valor daquela. O tempo
passado confunde os acontecimentos na mente do narrador, impedindo-o de separar
o falso do verdadeiro, o vivido do imaginado. Essa opção pelo monólogo de
caráter memorialista implica, no plano da narrativa, a distribuição caótica da
memória. Dessa forma a linguagem assume, para o narrador, um poder mágico. Falar
a própria vida constitui a matéria narrativa do romance, mas as dificuldades do
viver e do narrar distorcem as duas práticas e por isso acabam criando um texto
ambíguo, tão enigmático quanto a vida, onde tudo é e não é, simultaneamente. Em
meio a jagunços, assassinatos e perseguições que constituem um dos fios da
narrativa, existe também o plano amoroso, o amor de Riobaldo por Diadorim é uma
espécie de segunda batalha travada pelo personagem que, diferente daquela
travada externamente contra os inimigos, é travada internamente contra um
inimigo invencível e incompreensível. De maneira geral o romance nos aponta para
o plano de vida da jagunçagem, que nos permite compreender componentes
geopolíticos, sociais e econômicos do sertão, além do plano das reflexões,
criado pelos temores de Riobaldo velho, revendo e avaliando o passado e sua
própria vida. encontramos no romance também um plano mítico, centrado nos
conflitos representados pelas forças da natureza e na reflexão sobre a
existência do diabo: "Mas,
não diga que o senhor, instruído, que acredita na pessoa dele? Não? Lhe
agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já o campo! Ah, a gente , na
velhice, carece de Ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum.
Nem espírito, Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso
servidor. Fosse lhe contar... Bem , o diabo regula seu estado preto, nas
criaturas, nas mulheres, nos homens. Até : nas crianças- eu digo. Pois não é
ditado:' menino- trem do diabo'? E nos usos , nas plantas , nas águas, na terra,
no vento... Estrumes....O diabo na rua , no meio do
redemoinho"
Ah! você deve estar me perguntando o
que a música tem a ver com o Grande Sertão, pois é, o romance é construído de
forma extremamente poética, na qual podemos notar uma musicalidade latente. Se
lido em voz alta o efeito é totalmente diverso de uma leitura silenciosa, não
quanto a compreensão mas em relação a os efeitos de musicalidade proporcionados
pela linguagem roseana, de resto há música mesmo no silêncio. Assim como
Riobaldo todos nós travamos uma batalha com o passado, no viver e no
contar.
Belos
e Malditos foi o segundo romance escrito por Francis Scott Fitzgerald
(1896-1940), publicado em 1922. Nesse livro, Scott Fitzgerald descreve com
extrema maestria o período chamado a Era do Jazz. Esse período que teve início
no começo da década de 20 foi regido por uma prosperidade descomunal e os jovens
que usufruíram dela foram chamados de Flamingo Youth (Juventude Flamejante). Mas
infelizmente para os americanos a Era do Jazz durou apenas até a grande
depressão em 1929 Belos
e Malditos foi o primeiro romance que li de Fitzgerald, em seguida li O Último
Magnata (terminado por Edmund Wilson, que utilizou as anotações de Fitzgerald
que faleceu antes de concluí-lo) e que teve sua versão para o cinema em 1976 com
Robert De Niro. E por fim o aclamadíssimo O Grande Gatsby, que também teve sua
versão para o cinema em 1974 com Robert Redford como Jay Gatsby. Posso
estar cometendo uma heresia, mas esse último, a meu ver não superou de forma
alguma Belos e Malditos. Na verdade fiquei até decepcionado, pois sua fama é tão
grande que fiz questão de deixá-lo para ser lido por
último. O que
me encanta em Belos e Malditos é como Fitzgerald nos envolve em sua narrativa.
Nessa aventura, somos apresentados ao casal protagonista, Anthony Patch e Glória
Gilbert . Conhecemos suas personalidades e testemunhamos os altos e baixos de
seu casamento. Claro, sempre regados a bebidas e extravagâncias, sustentados
pelos juros medíocres de uma herança herdada de sua mãe. O avô de Anthony é o
milionário moralista, chamado Adam J. Patch e em razão do estilo do neto, o
priva de regalias, gerando em Anthony o desejo de o velho morrer para abocanhar
sua fortuna. Há
também personagens que por serem secundários, não são menos interessante, como
os amigos de Anthony, Maury Noble (talvez o mais centrado) e Richard Caramel
(escritor iniciante tremendamente subestimado por
ambos). A
tônica da obra é pautada na futilidade e na preocupação com as aparências vivida
pelo casal, de forma absolutamente irresponsável (para se terideia, ambos abominam o trabalho) e essa escolha se sustenta até
determinado momento, dando início a um trágico
declínio. Nossa, acho que já contei demais, então vou parar por aqui, pois tenho
planos de futuramente escrever um ensaio sobre essa
obra. P.S.
Para quem não sabe, tem uma música do Capital Inicial que leva o nome desse
romance e sua letra descreve um pouco do ocorrido nesse período, além de também
fazer menção a outro título de Fitzgerald chamado Suave é a Noite, publicado em
1934. Então vai lá, não perca tempo e mergulhe de cabeça no
universo desse que foi sem dúvida um dos maiores escritores do século
XX! (Texto: Sergio Silva)
A obra de Frank Zappa e Muito extensa e
diversificada, já são quase noventa discos entre seus lançamentos oficiais. Seus
discos mais cultuados são; “Joe’s Garage”, “One Size Fits All”, “Aphostrofe” e “Hot
Hats”, Álbuns indiscutivelmente maravilhosos, mas seria quase um crime nos
limitarmos a esses discos, pois Zappa não tinha limites e a musica de alta
qualidade era sua única obsessão, mesmo que isso comprometesse sua
popularidade.
Para exemplificar meu argumento temos o seminal
“Just Another Band From L.A”(um dos meus discos preferidos), gravado ao vivo em
agosto de 1971 e lançado em 1972, ainda com os Mothers. Zappa esta no mínimo magnifico
e os temas apresentados neste disco não são menos fantásticos. “Billy The
Montain” e uma clara parodia a operas rock (Imaginem uma narrativa de quase 25
minutos sobre o amor entre uma montanha e uma arvore?!?) ou em “Call Any
Vegetble” e “Magdalena”.
Zappa foi a marca de um período onde musica era
levada a serio, um contestador nato, (Vide sua luta contra a censura e ate uma
inusitada candidatura a presidência dos Estados Unidos). Definitivamente não da
pra dizer que apreciamos boa musica sem adentrarmos no universo “Zappiano”.
Dois irmãos é o título do segundo livro do escritor e professor de literatura da Universidade Federal do Amazonas, Milton Hatoum. Esse livro deu a ele o Prêmio Jabuti de 2000 (o segundo dos três livros vencidos por ele no mesmo prêmio). Milton Hatoum é descendente de libaneses e essa característica o influenciou ao compor os personagens de Dois Irmãos.
A história se passa na cidade de Manaus (mas o autor também menciona o sul do Líbano que é de onde veio a geração anterior e São Paulo, destino de um dos personagens). O livro começa pelo fim, ou seja, nos anos 60, voltando para os anos 20 e retornando para os anos 60. Outra curiosidade é a discrição do narrador (o livro é em primeira pessoa), pois só sabemos seu nome quase no fim.
Nos 12 capitulo, Hatoum descreve com uma linguagem bastante acessível, a decadência de uma família, que tem como personagens principais os dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, que possuem personalidades completamente distintas, fato esse que contribui para um sério problema de relacionamento.
Fica aqui a dica pra você que quer ler um livro de altíssima qualidade literária e com uma linguagem bem simples.
Foi a sensação que tive ao terminar a leitura da última linha de Vinhas da Ira. Livro publicado em 1939, cujo autor é o norte-americano John Steinbeck, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1962. Nesse livro, Steinbeck descreve a saga da família Joad, que em razão da grande depressão de 1929 deixa para trás as terras que ocupava em busca da sobrevivência. A mão de obra arcaica da família já não acompanha o progresso (tratores e máquinas no processo de aragem da terra para o plantio) implementado pelos donos das terras.
É durante a viagem rumo a Califórnia (destino sugerido por um panfleto onde dizia que havia muitos empregos em pomares) a bordo de um velho automóvel que ocorrem os maiores momentos de angústia e tensão. Escassez de dinheiro, saúde debilitada, humilhações, entre outras coisas, dá um tom trágico ao romance e faz com que o leitor sinta-se como um ente da família, tamanha a compaixão que essa nos inspira. Mas os Joads diante de tantos obstáculos e privações, nunca perdem a garra e a esperança e são sempre liderados pela Mãe (uma personagem brilhante), que toma o posto de chefe da família que até então era do Pai.
Não tem como ao ler essa densa obra e não sentir que pior que você imagine que sua vida esteja, ela é ainda bem melhor do que muitas por aí afora.
Para alguns, essa minha afirmação pode parecer conformismo com a desgraça alheia, mas sempre que eu fechava o livro e voltava à atenção a minha vida, me vinha uma sensação de alívio, por não ter passado por isso (haja vista que a obra foi baseada na crise de 1929, onde inúmeras pessoas suicidaram-se ao reconhecer que perderam tudo).