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sábado, 19 de abril de 2014

Gabriel Garcia Marques - Crônica de Uma Morte Anunciada




Tive contato com essa obra prima através de um grande professor de língua portuguesa, chamado Zaqueu. Aliás, não foi apenas esse livro que ele nos apresentou em sala de aula, ``Amor Nos Tempos de Cólera e ``Cem Anos De Solidão´´ fizeram parte dessa trilogia de descobertas.
``Crônica de Uma Morte Anunciada´´ foi publicado em 1981. Garcia Marques nos brinda com uma narrativa envolvente. O enredo é um prato cheio para Garcia Marques destilar todo o seu conhecimento da estrutura jornalística. O livro é narrado em primeira pessoa, mas o narrador não é onisciente, pois ele escreveu sua crônica, colhendo informações, opiniões e lembranças dos habitantes da vila de Riohacha.  A crônica gira em torno das horas que antecederam o assassinato de Santiago Nasar, filho de um rico emigrante árabe que foi morto a facadas pelos irmãos Pedro e Pablo Vicário para honrar a família do vexame de ter tido sua irmã Ângela Vicário devolvida após a lua de mel com o misterioso forasteiro chamado Bayardo San Román. Santiago Nasar é tido como o culpado pela desonra, fato esse confessado pela própria Ângela.
Abaixo; um trecho da magistral narrativa desse gênio chamado Gabriel Garcia Marques.

"Assustei-me quando o vi pela frente", disse-me Pablo Vicário, "porque me pareceu duas vezes maior do que era”.Santiago Nasar ergueu a mão para aparar o primeiro golpe de Pedro Vicário, que o atacou pelo flanco direito com a faca na perpendicular.
- Filhos da puta! - gritou. A faca atravessou-lhe a palma da mão direita, e mergulhou de imediato até ao fundo do costado.
Toda a gente ouviu o seu grito de dor.
-Ai minha mãe!
Pedro Vicário puxou a faca para fora com o seu pulso rude de magarefe, e assestou-lhe um segundo golpe quase no mesmo lugar. "O estranho é que a faca voltava a sair limpa", declarou Pedro Vicário ao juiz instrutor. "Eu já lhe tinha furado pelo menos umas três vezes e não havia nenhuma gota de sangue ”.Santiago Nasar torceu-se com os braços cruzados sobre o ventre depois da terceira facada, soltou um gemido de bezerro, e tentou virar-se de costas. Pablo Vicário, postado à sua esquerda com a faca recurva, assestou-lhe então a única facada nas costas, e um jorro de sangue a alta pressão encharcou-lhe a camisa. "Cheirava como ele", disse-me. Três vezes ferido de morte, Santiago Nasar enfrentou-os novamente, e apoiou-se de costas contra a porta da mãe, sem a menor resistência, como se quisesse tão-só ajudá-los a acabar com ele em partes iguais. "Não voltou a gritar", disse Pedro Vicário ao juiz instrutor. "Pelo contrário: pareceu-me a mim que se ria." Os dois continuaram a esfaqueá-lo de encontro à porta, com golpes alternados e fáceis, flutuando no remanso deslumbrante que encontraram do outro lado do medo. Não ouviram os gritos da vila inteira espantada com o seu próprio crime. "Sentia-me como quando se vai à carreira num cavalo", declarou Pablo Vicário. Mas rapidamente despertaram ambos para a realidade, porque estavam exaustos, e apesar disso parecia-lhes que Santiago Nasar não iria cair nunca. "Porra, primo", disse-me Pablo Vicário, "sabes lá como é difícil matar um homem. Não fazes idéia!" Tentando acabar de uma vez por todas, Pedro Vicário procurou o coração, mas procurou-o quase na axila, onde o têm os porcos. De fato Santiago Nasar não caía porque eles estavam a escorá-lo à facada de encontro à porta. Desesperado, Pablo Vicário deu-lhe um talho horizontal no ventre, e os intestinos afloraram com uma explosão. Pedro Vicário ia a fazer o mesmo, mas o pulso torceu-se-lhe de horror, e então deu-lhe um talho extraviado na coxa. Santiago Nasar ficou ainda um instante apoiado contra a porta, até que viu as suas próprias vísceras ao sol, limpas e azuis, e caiu de joelhos.

(Texto: Sergio Silva)

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