São Paulo completa 462 anos amanhã, mas as festividades já começaram e O C.E.U. Aricanduva sediou um dos eventos mais improváveis para comemorar essa data. Imaginar o Ratos de Porão tocando para uma plateia sentada, é no minimo esquisito e certamente não estava nos planos fazer um show acústico. Bom, a duvida permaneceu por todo o período em que esperávamos a entrada para o teatro. Será que teríamos que assistir ao Ratos de Porão sentados?
Inicialmente o evento que estava agendado para as dezoito horas atrasou e, com o publico já se acomodando nas poltronas (?!), podemos ouvir da platéia os ajustes finais nos instrumentos. Em poucos instantes as cortinas se abriram e lá estavam João Gordo, Juninho, Boka e Jão empunhados de suas ``armas´´ para começar o massacre. Lembra que falei que estava todos sentados? Quando ``Amazônia Nunca Mais´´ jorrou pelos amplificadores, as poltronas se tornaram meros trampolins e o mosh pit se transformou em um pandemônium.
Clássicos e mais clássicos foram executados impiedosamente diante de ``seletos espectadores´´ ensandecidos e ``joias´´ como ``Morrer´´ e ``Crucificados Pelo Sistema´´ jamais se ausentariam em uma apresentação desses quatro cavalheiros. Digo isso, pois tirando o Juninho, que é o caçula da banda, todos estão ou já ultrapassaram a faixa dos cinquenta, mas a energia continua intacta. Afinal, não é pra qualquer um levar o som que eles levam com tanta agressividade.
Vale registrar que os caras tocaram três sons do ``Feijoada Acidente? - Brasil´´, e foi um tiro certeiro na cara dos que insistem em profanar as besteiras habituais - como a mais reproduzida; onde alguns idiotas insistem em dizem que os caras se venderam ou que traíram o movimento. Muito pelo contrario, pois eles carregam a bandeira do som pesado a mais de trinta e cinco anos com integridade irretocável.
Vamos torcer para que mais eventos como esse se tornem rotina na agenda das unidades do C.E.U. e que o Ratos não demore a voltar!
Mais um ícone das artes contemporâneas nos deixa para integrar o hall dos grandes realizadores, e entrar definitivamente para o seleto grupo dos “imortais”. Sim, para definir um artista da magnitude de David Bowie não há outra forma que não seja essa, pois além de ter flertado com o rock, jazz, música eletrônica, soul e o que mais fosse necessário para materializar sua genialidade, ainda criou personagens inesquecíveis que eram indissociáveis de sua música, ao ponto de que um não poderia existir sem o outro. Esse dom se comprova em suas aparições cinematográficas que também lhe renderam bons frutos, vide “ O Homem Que Caiu Na Terra” de Tony Scott ou “Furyo” de Nagisa Oshima. Apesar de serem vistos com certo desdém na época, hoje se tornaram cult.
Clichês para definir Bowie sempre circularam de forma muito frequente e a mais famosa é a de “camaleão do rock”. Nesse caso Nelson Motta, em sua coluna eletrônica semanal ao Jornal da Globo, foi muito feliz em discordar dessa tese, pois ainda em suas palavras “David Bowie não ``roubava´´ as cores do ambiente como um camaleão, ele radiava suas próprias cores”. Seu rico legado não compreende somente os vinte e cinco discos gravados em estúdio (já contando com o último álbum, que foi lançado quatro dias antes de sua morte). E por falar nesse ultimo disco - “Blackstar” veio como uma espécie de testamento, pois Bowie já lutava contra um câncer a dezoito meses e sabia que não havia cura.
Se fizermos um rápido “balanço” de seus serviços prestados, veremos ainda as ramificações pulsantes no seminal “Transformer” disco que produziu para o amigo Lou Reed ou nas mixagens do “.Raw Power“ dos Stooges, só para ficar em dois exemplos.
Deixe as comoções baratas que costumam contaminar as redes sociais de lado e entre de cabeça no universo de Bowie, prestigie sua obra e compartilhe sua arte com o maior número de pessoas possível. Você estará fazendo um favor para elas e principalmente para si mesmo.
Os tempos estavam mudando e uma nova safra de diretores americanos surgia para subverter o velho esquema dos grandes estúdios de cinema na América. O início dos anos setenta foi o ponto de partida para que jovens e inquietos artesãos da sétima arte tomassem as rédeas de produções que se tornariam referencia para dez em cada dez diretores que surgem nos tempos de hoje. Steven Spielberg, George Lucas e Francis Ford Copolla foram alguns dos responsáveis pelo que ficaria conhecido como ”cinema autoral independente”. Com baixo orçamento e pouco apoio dos grandes estúdios conseguiram realizar obras de primeira grandeza e com uma estética inovadora.
Dos filmes realizados nesse período um pode ser encarado como unanimidade entre cinéfilos e críticos, falo do “Poderoso Chefão – Parte I” (The Godfather) que se tornaria uma das maiores sagas sobre máfia já criadas na história do cinema (mais duas sequências seriam realizadas; a espetacular “Parte II”e a não tão inspirada “Parte III”).
A começar pelo elenco que contaria com o já renomado astro Marlon Brando que imortalizou “Don Vito Corleone” e Al Pacino, em seu primeiro papel de destaque como Michael Corleone, vale também destacar as atuações de Robert Duval, Diane Keaton, James Caan e grande elenco. Copolla não teve vida fácil durante o período de produção do filme e para ficar em um exemplo, foi obrigado a submeter Marlon Brando a um teste para encarnar o “Chefão”. Nino Rota foi o responsável pela trilha sonora que serve mais como moldura para o que se vê na tela, tamanha a sincronia entre imagem e música.
O jogo de poder é o ponto de partida para que uma luta, algumas vezes cerebral, e na maioria do tempo extremamente violenta, conduza uma quase biografia do cotidiano da máfia proveniente da Sicília - não por acaso Copolla foi acusado de fazer propaganda para a máfia alimentando os muitos boatos envolvendo o filme. Polêmicas a parte, o mais importante é ver o filme muitas vezes, sem restrições, pois a cada revisão será uma aula a mais do que de melhor foi produzido no cinema.
Depois de um enorme hiato, eis que novamente um dos festivais mais queridos entre os que apreciam o som pesado volta a ser realizado em São Paulo. Agora sem o suporte da famosa empresa holandesa e com duração de dois dias, a Arena Anhembi foi o local escolhido para sediar o esperado evento.
Em seu cast, os organizadores optaram por mesclar os estilos, mais especificamente o metalcore e o hard rock que nessa ordem, foram divididas pelos dois dias do festival. Além das bandas que falaremos mais à frente, foi escalado como mestre de cerimônia Eddie Trunk, apresentador do renomado programa “That Metal Show”veiculado pelo canal VH1 para ser o mestre de cerimônia.
Já as bandas escaladas foram muito festejadas e apesar de alguns nomes questionáveis, agradaram em cheio. As bandas nacionais não poderiam ficar de fora e o Project 46 foi o responsável pela abertura do evento. O Hellyeah, banda capitaneadas por Vinnie Paul (ex Pantera) estava escalada para o mesmo dia, mas por problemas pessoais a apresentação foi cancelada. Na sequência os franceses do Gojira deram ao público o que se esperava e com um som bastante agressivo foi bastante festejado. A atração seguinte já era bastante conhecida por essas terras, mas essa seria a primeira vez em que o Hatebreed tocaria em um festival “open air”no Brasil e a empolgação foi grande entre banda e público. O auge da apresentação ficou por conta da homenagem ao Sepultura com “Refuse/Resist” que contou com a participação de Andreas Kisser, ótima apresentação. Ainda com um calor muito forte o Killswitch Engage trouxe o seu metalcore bastante agressivo para deleite dos mais afoitos.
Já a noite o Limp Bizkit tocou alguns de seus temas mais conhecidos e fez covers de Nirvana e Rage Against The Machine. Com a primeira dia do festival já chegando ao seu fim era a hora das principais atrações e a vestimenta do público era predominante dessas bandas. E foi a vez do Korn trazer o seu “Nu Metal” e incendiar a público já em êxtase. O clímax da apresentação mais uma vez ficou a cargo da participação de Derrick Green e Andreas Kisser com a já indispensável “ Roots Blood Roots”. Dia de justa homenagem ao mais ilustre representante do metal nacional. Para fechar a noite ninguém melhor que os mascarados do Slipknot que com sua já conhecida performance arrebataram definitivamente o público que naquela altura já estava em êxtase, junte tudo isso aos som pesado e a movimetação insana dos caras para não ficar dúvidas que a escalação desses “monstros” do Nu Metal foi mais que acertada. E vamos para a segunda noite...
Ao contrário do primeiro dia, podemos perceber logo de cara que o dia seria reservado para um público mais tranquilo, pois as principais atrações são sinônimo de festa regada a muita bebida e mulheres em abundância. Vencedores de uma promoção realizada pela organização do festival, o Eletric Age foi responsável pela abertura do segundo dia e na sequência o Dr. Pheabes deu continuidade aos trabalhos. Outro “Doctor” veio em seguida, mas esse já possui prestígio merecidamente conquistado com anos de trabalho árduo e festivais já são corriqueiros em seu currículo. O Dr. Sin enfrentou um calor fortíssimo para dar ao público o que se esperava; muito hard rock executado com excelência. Algum tempo depois a banda anunciou o fim das atividades. Uma pena... O Dokken foi um dos baluartes do hard rock dos anos oitenta e possui em sua discografia clássicos que ajudaram a imortalizar o estilo. A apresentação infelizmente não foi aquela que Don Dokken costumava entregar em seu auge, mas o publico nao deu a minima para esse “detalhe” e Curtiu bastante. Geoff Tate’s Queensryche é a versão de Tate para o grupo que o consagrou em um passado não tão distante. O que podemos ver foi que não decepcionou, mas ficou longe de empolgar, a nova encarnação do Queensryche vem dando muito mais o que falar...
O Buckcherry era a única banda gringa formada nos anos noventa, mas trouxe um hard rock visceral que mesmo não empolgando tanto esquentou o público para o que viria a seguir. E foi uma viagem fantástica, pois não acreditava mais em uma vinda do Ratt ao Brasil e ainda mais com a formação que fez muito marmanjo como eu ir as lágrimas. “Round And Round”, “Body Talk” e “Lay It Down” foram algumas das pérolas executadas. Realmente foi daquelas apresentações para chorar de alegria. O Whitesnake desde de sua primeira apresentação no “ Rock In Rio”, foi presença constante no Brasil e teve momentos memoráveis por esses lados, acontece que os tempos são outros e a voz de Covardale está longe de ser aquela que o fez ser considerado “a voz”. Mesmo assim é sempre bom vê-lo executando clássicos imortais de sua trajetória.
E finalmente a festa estava chegando ao fim e não poderia ser encerrada de outra forma que não fosse com um dos mais relevantes nomes do rock. Sim o Aerosmith é uma das formações que mais se mantém fiel ao estilo e que mantém a mesma formação durante anos. As performances de Steve Tyler e Joe Perry ainda empolgam, executando clássicos como “Eat The Rich” ou “Love In An Elevator” mesclados com músicas mais recentes (e já clássicas) “Crying” e “Livin’ On The Edge”, se não bastassem ainda fizeram uma homenagem a uma de suas influências com “Come Together” (The Beatles). Não precisa dizer que fecharam a segunda noite e o festival no mais alto nível. No final o saldo foi extremamente positivo e abriu as portas para mais uma edição em 2015 com Kiss e Ozzy Osborne como headliners, mas essa já é uma outra história...
A morte de Lemmy é algo difícil de digerir, pois sua vida e obra são motivo de louvor entre os que escolheram admirar o som pesado que ele defendeu durante toda sua trajetória como um estilo a ser seguido(me incluo entre esses). Ele não era só um personagem, Lemmy realmente era aquilo que levava para os palcos e talvez por isso seja a principal referencia quando falamos de espirito libertário no rock.
Sua figura emblemática e seus inúmeros discos, cheios de clássicos imortais, foram e continuarão sendo fonte de energia para muitos, pois Lemmy nunca se preocupou em “tirar o pé do freio”, e por anos dilacerou tímpanos com sua máquina chamada Motorhead. Seus excessos nunca foram segredo para ninguém e sua vida foi vivida com muita intensidade até o último momento. Mesmo assim, foi dolorido ver o mestre cancelar a apresentação no último Monsters Of Rock em São Paulo por problemas de saúde. Sinal de que algo não andava bem.
Lemmy nos deixa para ser definitivamente canonizado como “Deus”, pois nenhum outro adjetivo seria mais apropriado para definir o ícone da rebeldia, e que no auge de seus setenta anos permanecia representando gerações de jovens revoltados ( com ou sem causa), com sua música altíssima, pesada e ainda relevante. Me utilizo da citação de um colega, onde ele diz que Lemmy estragou sua vida, mas tenho que acrescentar que certamente estragou para melhor - “Lemmy is God”!
O surgimento da gravadora
Cogumelo e a cena mineira de metal dos anos 80 se confundem entre si, e um
certamente não teria o mesmo êxito se não existisse o outro. Pois assim como a
Cogumelo foi importante para as bandas que estavam surgindo naquela época, as
bandas também tinham um enorme potencial a ser explorado e, nesse caso a
expressão´´juntar a fome com a vontade de comer´´ cai como uma luva.
Muito bem vindo, o documentário
``Cogumelo 35 Anos´´ trás para as novas gerações a importância do selo e da cena
formada por bandas que estiveram/estão em seu casting e que ainda fazem muito
barulho na cena mantida com muita persistência diante de todas as dificuldades
vividas durante esses 35 anos de
história.
Com depoimentos de personagens
importantes como a fundadora do selo, Pat Pereira e integrantes de bandas e fãs
que vivenciaram e ainda vivem essa historia, temos uma noção da relevância
adquirida por esse que ainda é referencia entre os selos do cenário conhecido
como underground. Infelizmente integrantes de bandas com Sepultura e Sarcófago
não aparecem com seus relatos, o que certamente enriqueceria ainda mais esse
registro. Enfim, não se pode ter tudo. Mas o saldo é bastante positivo e deve
ser conferido. Que mais registros como esse ``pipoquem´´ por aí!
No último dia 31 de
Outubro o C.E.U. (Centro Educacional Unificado), abriu espaço para um dos
artistas mais relevantes da música popular Brasileira. Falo de Luiz Melodia,
que com sua voz envolvente e cheia de swing, agradou aos que tiveram a
oportunidade de presenciar esse espetáculo. E meus amigos, que apresentação!
Sem banda, mas com Renato Piau e seu violão em punho trouxeram na bagagem
as melhores roupagens para composições que marcaram época. Melodia encorpara o
soul, o pop, o rock, samba e o que mais couber em sua música construindo um
repertório empolgante e muito festejado. Basta ouvir “Holly Estacio” ou
“Fadas”, ponto alto de seu repertório cheio de “pérolas”, e sem dúvida, a
referencia serve para dizer que “Pérola Negra” estava lá, mais bela que nunca e
ainda empolgando aos ávidos por clássicos. “Magrelinha” em igual proporção e um
final apoteótico com uma endiabrada versão de ´´Negro Gato” foram em igual
proporção muito festejadas por todos. Fácil dizer que foi um show
impecável e que ficará na memória dos que testemunharam momento tão singular. O
único ponto negativo, foi exatamente o fato de poucas pessoas terem
presenciando esse raro manifesto de cultura nessa tão corroída periferia cheia
de marcas e com mais incertezas que esperança, uma pena.
O Conceito de sincronicidade de Junj trata das interligações de fatos aparentemente sem ligação, até então interpretados como coincidências. Segundo o psiquiatra suíço, mesmo não existindo uma ligação casual provavelmente haveria entre eles uma relação significativa. Sting chegou em Jung através de Arthur Koestler - cujo o apreço pela obra ja havia servido de inspiração para o titulo do então ultimo álbum do The Police, ``Ghost In The Machine`` - e seu livro ``Raízes da Coincidência``. Inebriado pelos fascinantes escritos parapsicológicos e abalado pelo recente fim de seu casamento, o vocalista se instalou na Jamaica e escreveu as músicas daquele que seria o grande disco da banda: a obra-prima ``Synchronicity``.
Depois de terem dado uma pausa com a banda e partido para trabalhos solos, os integrantes da banda se reuniram para a gravação do álbum no final de 82 no AIR Studios em Montserrat e o clima não estava nada bom. Com os egos exaltados pelo sucesso e o entendimento cada vez mais atropelado pelas vaidades, a banda dificultou bastante o trabalho do produtor Hugh Padgham, que ja havia trabalhado com o grupo no disco anterior, a ponto de cada membro gravar sua parte numa sala separada do estúdio (Stwart Copeland gravou sua bateria na sala de jantar, Sting usou a sala de controle e Andy Summers, o estúdio principal), o que, segundo Padgham, além de reoslver os ``problemas sociais``, traria um resultado melhor na captação do som dos instrumentos.
Com Sting assumindo quase que totalmente o controle da banda, compôs sozinho oito das dez musicas do album, o disco propõe um som diferente do que a banda (e seus imitadores) vinha fazendo até então.
Sintetizadores a todo vapor, sequencia eletrônica de bateria, misturada com um belo trabalho percussivo de Copeland e ``Synchronicity I`` abre junguianamente o álbum em tom de new wave, na sequencia o característico vocal de Sting dá vida a ``Walking In Your Footsteps``, uma bela canção com atmosfera ``World Music´´, bem ao estilo que o cantor seguiria em sua carreira solo, cuja letra descreve uma ra-humana seguindo fielmente as pegadas dos dinossauros rumo a extinção, com mais um belo trabalho de Copeland na bateria (aonde podemos notar a mão do produtor Padgham, num resultado que traz lembranças da inovação obtida em ``In The Air Tonight´´ de Phil Collins).
Baixo em ebulição e ``O My God´´ aparece cheia de balanço, um surpreendente sax tocado por Sting e a inclusão de uma estrofe de ``Every Little Thing She Does is Magic´´, hit do álbum anterior da banda, numa possível referência à teoria de serialidade de Paul Kammer (``Do I have to tell the story of thousand rainy days since we first met, it´s big enouth umbrella but it´s always me that ends up getting wet´´), ``Mother´´, composição de Andy Summers, que assume os vocais, gritos e gargalhadas numa canção cheia de tensão e estranhamento, que parece saida diretamente de ``Discipline``, album lançado dois anos antes pela banda King Crimson (cujo líder Robert Fripp havia gravado naquele mesmo ano um disco em parceria com Summers, ``I Advance Masked``). ``Every Girl i go out with becomes my mother in the end``, diz a letra dessa pequena jóia experimental. Freud explica? ``Miss Gradenko`` de Stwart Copeland traz o clima da banda no inicio de carreira. ``Synchronicity II``encerra o lado A em alto estilo. Sintetizadores, baixo firme, guitarra esperta e bateria precisa aliada a alguns truques de Padgham, um tipico rock de arena dos anos 80 como só o The Police poderia fazer. Sucesso total.
Na letra Junguiana, um homem se vê angustiado com sua rotina de suburbano enquanto a milhas de distância algo assustador emergia de um escuro lago da Escócia, numa clara referência ao monstro do lado Ness.
Mas é quando chega o Lado B que o ótimo disco vira uma obra-prima. Baixo passeando, bateria econômica um riff hipnótico de Summers e ``Every Breath You Take´´ entra em cena cheia de magia. Com uma letra que fala de paranóia e uma possível citação a Orwell (I´ll be watching you´´), esse pop perfeito de Sting, que a escreveu no piano após um sonho, invadiu as paradas de sucesso e para surpresa de seu compositor passou a ser tocada até em casamentos. Foi inclusive na gravação dessa faixa que Sting e Copeland se desentenderam, Copeland não queria fazer uma batida simples e o compositor fazia questão que fosse desse jeito, a ponto das agressões verbais se transformar em luta corporal, o que deixou o produtor Padgham em dúvida se continuaria ou não o trabalho, ocasionando até uma reunião com o empresário da banda para discutir se valia a pena levar o projeto adiante. O projeto foi adiante e ``every Breath You Take´´ se transformou no maior sucesso comercial da banda, entrando para a história da musica popular como um clássico da década de 80. Sem pausa pra respirar e imediatamente após ``Every Breath...´´. surge mais uma obra-prima: ``King Of Pain``. A melodia arrebatadora deSting
começa apenas com um vocal triste e um piano melancólico para depois tomar
força e abrir espaço para a guitarra chorosa de Summers (o guitarrista faz mais
um belo trabalho nesta faixa), a beleza dos vocais de apoio em resposta à letra
e a bateria magistral de Copeland, numa letra recheada de referências
junguianas de sinais e sincronicidade para falar do fim do casamento do cantor.
Consegue ser o destaque de um disco cheio de pérolas. Nota máxima! A música
ainda voltaria para as paradas anos mais tarde numa gravação não menos
brilhante de Alanis Morissette em seu acústico para a MTV. Misturando o
Dr.Fausto e o aprendiz de feiticeiro (ambos de Goethe) e mitologia grega,
"Wrapped around your finger" é outro grande sucesso. Mais uma
obra-prima. Aqui a atmosfera melancólica desse lado do disco, destacada por um
hipnóticopiano tocado por Sting, se mistura com o reggae de branco, que marcou
o início da banda,nos lembrando que o disco foi gravado no Caribe. Mais um
golaço! A envolvente "Tea in Sahara" encerra o disco em clima jazzy
com pitadas de Oriente Médio, nos dando mais uma amostra dos caminhos que Sting
seguiria na sua carreira-solo e contando uma história inspirada num livro de
Paul Bowles, "Sheltering Sky", que se baseia na lenda árabe de três
mulheres (um trio!) que morrem cobertas de areia no deserto esperando o
príncipe retornar para tomar novamente um chá com elas.
"Synchronicity" desbancou "Thriller", de Michael Jackson,
do primeiro lugar, enfileirou hits nas paradas,vendeu milhões e milhões de
cópias, ganhou "Grammys" e colocou o The Police no patamar de maior
banda de rock da época. Porém, na capa do álbum, que teve diferentes versões de
fotos pelo mundo (a mais comum é a que Sting aparece lendo Jung), os
integrantes já aparecem separados. Cada um no seu quadrado. Depois de uma turnê
vitoriosa, a banda, como era de se prever, se desintegraria na sua crise de
egos.
Em meio a maus sentimentos, o The Police criou seu melhor disco e aumentou
consideravelmente seu número de fãs. Numa obra que usa Jung para falar sobre os
vários fins que se faziam presente naquele fim de século, a banda usou sua
música para expressar a angústia dos rompimentos ao mesmo tempo em que
registrava, de maneira brilhante, o seu próprio fim. E não foi coincidência!
Falar de Milton Nascimento é um exercício de reflexão e requer muito empenho na busca por definir sua magnífica contribuição artística para a humanidade. Com o intuito de adentrar ao universo do mineiro de Três Pontas, esse que vos escreve escolheu o disco “Courage” lançado em 1969 e que teve como seu principal “Fiador” o maestro Eumir Deodato, (que na época já desfrutava de grande reconhecimento por seu trabalho como arranjador e mastro), e que ficou marcado por ser lançado como seu primeiro álbum internacional.
O disco possui dez faixas, sendo que sete delas já haviam figurado em seu primeiro trabalho “Travessia”, basta ouvir a faixa título ou “Morro Velho” para comprovar que o que já era bom ficaria muito próximo da perfeição.
Com “Courage”, Milton atingiu patamar jamais alcançado em sua terra natal até então. De quebra se tornou um dos mais belos trabalhos de sua carreira. Herbie Hancock, que na época fazia parte da banda de Miles Davis, pediu para participar do álbum e Eumir cuidou dos arranjos; o resultado desse trabalho é irretocável.
A carga emotiva e a veia contestadora de Bituca se fazem presentes em cada frase/nota do álbum - marca registrada do mestre, que com o passar do tempo se tornou sinônimo de bom gosto.
Milton é reverenciado mundialmente por artistas das mais variadas vertentes. Não por acaso, é referencia até para as próprias referências. Por isso, só posso dizer uma coisa; Ave Milton!
O Brasil é um país riquíssimo em se tratando de personalidades marcantes. Nesse quesito Leila Diniz está entre as que são lembradas por sua ousadia e espírito libertário. Sua passagem curta, mas meteórica por esse planeta foi suficiente para deixar marcas que jamais serão esquecidas por seus contemporâneos e até por aqueles que não viveram seu tempo. Nesse caso, vale registrar que o diretor Luiz Carlos Lacerda prestou uma belo tributo ao “mito” Leila Diniz. O filme que leva o nome da atriz, possui um elenco de respeito e convidados muito especiais, o que comprova a importância dessa grande artista. Louise Cardoso viveu a personagem com uma dignidade impressionante, pois mesmo não tendo muita semelhança com Leila, nos convence de que o que estamos vendo na tela é verdadeiro, ponto para o diretor que optou por retratar “Leila como Leila”, sem apelar para sentimentalismo barato, tão em voga nos dias de hoje.
No final das contas, a fita tem um conteúdo muito honesto, e ninguém melhor que Luiz Carlos Lacerda através da história de sua amiga, para retratar o quão intensa e bem vivida a vida pode ser. Sinceramente não imagino “as musas” de hoje tendo suas vidas lembradas daqui a trinta anos, pois estamos vivendo um imenso vazio de personalidades relevantes. Só temos a lamentar...