Destaques

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Bob Marley And Wailers - Soul Rebels (1970)







Depois de meia década de relativo sucesso na Jamaica, ao lado do amigo de infância Bunny Wailer e de Peter Tosh, Bob Marley, sentindo que não estava sendo respeitado pelos produtores e gravadoras, desmontou o The Wailers e mudou-se para os Estados unidos, aonde sua mãe já estava residindo, pensando em lá juntar dinheiro para comprar seu próprio sound system e poder assim produzir seus álbuns de forma independente. Ficou uma curta temporada, mas quando voltou o cenário musical jamaicano já era diferente: o ska tinha diminuído o andamento e se transformado em rocksteady e uma nova batida estava começando a tomar forma, impulsionada principalmente pelo, hoje lendário, produtor Lee Perry. Fascinado pelas novas possibilidades, o músico foi bater na porta do estúdio do produtor. Estava formada aí uma das parcerias mais importantes e negligenciada da história da música popular no mundo. 
O baixo de Lloyd Parks dá o tom e o The Wailers entram cantando "I'm a rebel, soul rebel". A música título, praticamente uma parceria entre Marley e Perry, já deixava claro na abertura do disco que os skas e pastiches de rhythm and blues americanos haviam ficado para trás. O soul ainda estava na gênese do som. Mas agora era um soul rebelde. "Try me" vem em seguida, com a cozinha dos irmãos Barrett dando o contorno e as belas harmonias vocais do Wailers ganhando personalidade ao mesmo tempo em que remetem à Motown. Sem metais, apenas guitarra, baixo, bateria e teclado. A nova batida desenhada por Perry começava a tomar forma definitiva nas brilhantes melodias de Bob. Na sequência, a guitarra de Alva Lewis faz a introdução para mais uma, dentre tantas, pérola pop do álbum: "It's alright", música que fala do período de Marley nos Estados Unidos, trabalhando como operador de empilhadeira na Chrysler, e mostra que a influência do produtor Lee Perry tinha alterado também o seu canto, tornando-o mais incisivo. "No symphathy", música escolhida para ser o single (nunca lançado) na Inglaterra, traz Peter Tosh nos vocais e na autoria, numa gravação mais lenta e esparsa que a regravada no seu álbum de estréia, "Legalize it", o que torna a desilusão retratada na letra ainda mais enfática. "My cup", uma adaptação de "Guess I'm gonna cry,cry,cry", de James Brown (sempre ele), foi a primeira música que Marley apresentou ao produtor e a que convenceu um supersticioso Lee Perry, fã incondicional de Brown, decidido a apenas trabalhar com temas instrumentais a aceitar produzir o cantor. Mesmo tendo sido a primeira música a ser gravada, já pode perceber-se o total entrosamento dos Wailers com o The Upsetters - banda de estúdio do produtor que Marley levaria consigo para a Inglaterra - com Aston "Family Man" Barrett trabalhando firme no baixo. "Soul almighty" flerta com o rock e encerra o lado A com uma guitarra suingada e deixando claro que a banda tinha realmente abraçado os fundamentos rasta e que a religião também seria uma marca de seus trabalhos. "Rebel's hop" abre o lado B com uma das belas harmonias vocais do Wailers, a prova de que o produtor havia acertado ao recomendar a Marley, então decidido a seguir sozinho, a juntar-se novamente com seus antigos parceiros. Destaque para a citação de "Cloud nine" do The Temptations, banda que Bob fez teste para ingressar durante sua estada nos EUA, e para as afiada guitarras de Alva Lewis e Tosh. "Corner stone", que seria rebatizada como "Jah is mighty" (com algumas alterações na letra), é inspirada em um incidente familiar em que Bob foi pedir ao seu tio Marley, dono da principal construtora jamaicana da época, dinheiro para comprar um carro para poder promover melhor sua música e recebeu a resposta de que o tio inglês não o reconhecia como membro de sua família. "The stone that the builder refuse,will always be the head cornerstone" (A pedra que o construtor recusar vai ser sempre a pedra angular), diz a letra com referência bíblica. Faz sentido. "400 years", outra com Tosh no "comando", com letra que versa sobre os 400 anos de escravização do povo negro, aparece mais acelerada e menos brilhante que a gravação feita para o apoteótico álbum "Catch a fire" (disco gravado alguns anos depois e que seria o primeiro grande disco da banda no cenário mundial). "No water" aparece com mais um maravilhoso trabalho vocal de Bob, mais brilhantes harmonias vocais do Wailers e é mais uma demonstração da veia pop do compositor. A decisão do "Scratch" perry em destacar os vocais da instrumentação, mostra-se eficaz no resultado da faixa."Reaction" é uma "música urbana", predecessora de "Concrete Jungle", com um conteúdo social e de chamamento. "In every little action, there's a reaction". Mais uma faixa em que a cozinha dos irmãos Barrett, o baixo chapado de Family Man e a bateria "one drop" de Carlton Barrett, ditam o ritmo e mostram que o som do reggae estava definido. "My symphaty",a faixa de encerramento, é uma versão instrumental de "400 years", bem ao estilo das gravações que vinham sendo lançadas por Perry e os The Upsetters, e que foi erroneamente batizada por ser confundida com "No Symphaty", a outra de Tosh.
"Soul Rebels" foi o primeiro disco do The Wailers lançado fora da Jamaica, com uma capa com a imagem de uma jovem moça com os seios à mostra e segurando uma metralhadora, que desagradaria os integrantes da banda que a classificariam como "soft porno". As gravações com Lee "Scratch" ainda continuariam no ano seguinte, com canções ainda melhores e mais pungentes (dentre elas "Lively up yourself, Kaya,Small axe, Dumpy conqueror. Todas depois ganhariam regravações nos discos "ingleses" da banda), e que resultariam em um outro disco, chamado "Soul revolution", que as "inteligencias" que comandavam a gravadora na Inglaterra se negou a lançar por classificar o som da banda como feito para um público muito restrito. Depois disso,Lee "Scratch" Perry continuaria suas experimentações em estúdio, gravaria ótimos discos com o The Upsetters,criaria o dub e se tornaria famoso no mundo inteiro como um dos grandes produtores musicais da história e os The Wailers cairiam nas graças do também jamaicano Chis Blackwell, produtor e fundador da Island Records, que, com melhores equipamentos e estúdios, tornaria o som do grupo mais palatável para o grande público europeu, Peter e Bunny deixariam a banda, partindo para ótimas carreiras solos, devido ao grande destaque dado a Bob Marley que acabaria por se transformar no primeiro (único?) pop star (no sentido estrito do termo) oriundo de um país periférico.Não é o melhor disco de Bob Marley and The Wailers, nos anos seguintes eles iriam além e criariam verdadeiras obras-prima da música mundial, mas é nele que está a formatação, a matéria-prima do produto que nos anos seguintes a velha Inglaterra industrializaria e comercializaria, abastecendo culturalmente o mundo inteiro.


(Texto:Leandro L. Rodrigues)



Continue Lendo...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Glenn Hughes - From Now On







From Now On é o terceiro álbum solo de Glenn Hughes gravado na Suécia em 1994. Já completamente livre das drogas, Hughes escalou um time de primeira linha contando com integrantes do Europe e com os virtuosos guitarristas Thomas Larsson e Eric Bojfeldt. Nesse disco, Hughes coloca em prática todo o seu manancial criativo elaborando composições de extremo bom gosto, muitas vezes até flertando com outros gêneros além do rock, é claro.

Destaque para algumas faixas do disco como: Pickin’up the Pieces que é  hard Rock puro na acepção da palavra e que contém  belos riffs de guitarra executados com maestria pela dupla de guitarristas. Lay my body down começa como se fosse um blues carregado, mas o couro come na seqüência com Glenn Hughes mostrando porque é chamado de The Voice of Rock. Em The only one ,  Hughes trabalha com seus vários timbres de voz. Já Why don’t you stay é uma belíssima balada onde um solo de guitarra simples é executado dando ênfase à melodia. The Liar é  ideal para se ouvir ao volante. Só cuidado para não capotar. Agora, Into the void poderia facilmente ser trilha sonora de filmes do tipo Mad Max por exemplo. Homeland é uma das mais legais do disco. Fecha o álbum a incendiária Burn, do Deep Purple, sua ex-banda, com uma versão nervosíssima.


(Texto: Sergio Silva) 
Continue Lendo...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

The Kinsey Report - Smoke and Steel







Smoke and Steel foi gravado em 1998 e é o quinto álbum da banda The Kinsey Report. Formada em 1984 pelos irmãos, Donald Kinsey (guitarra e vocal), Kenneth Kinsey (baixo) e Ralph Kinsey (bateria), a banda destila sua mistura de blues rock com muito bom gosto. Vale lembrar que Donald fez parte da banda de Bob Marley, além de excursionar com nomes de gabarito como Albert King e Roy Buchanan.  
O disco começa com Time is running out, um soco no queixo do ouvinte. Sem frescura com um timbre seco e cru de guitarra, Donald faz jus ao seu currículo. Em Dead in your tracks temos a participação de Roosevelt Purifoy nos teclados, com um solo primoroso engrossando ainda mais o caldo. Já This old city é potencialmente radiofônica. Loved ones é daquelas baladas soul que faria até Jece Valadão cair em prantos. Bem ao estilo Robert Cray. O destaque fica por conta do solo cheio de lirismo de Donald. Must be Love é a “tira o pé do chão” do disco. John Fogerty é homenageado em  Rattlesnake Highway, onde Donald opta por um timbre mais sujo e pesado. Representando o Blues (gênero que a banda domina bem), temos Down in the dungeon, com harmônica e guitarra slide. Blues dos bons! One Step Back de autoria de Billy Gibbons do ZZ Top finaliza o disco.



(Texto: Sérgio Silva) 
Continue Lendo...

Gov't Mule - Live at Roseland Ballroom









Depois de um relativo hiato aqui no blog, suficiente para sentir-me extremamente enferrujado, tento voltar de mansinho com essa resenha que diz respeito a uma das maiores bandas da atualidade, a Gov't Mule. O álbum em questão é Live at Roseland Ballroom que foi gravado ao vivo em Manhattan em 1995. Nesse disco o poderoso power trio composto por Warren Haynes nas guitarras, Allen  Woody no baixo e Matt Abts na bateria, começa  sua jornada musical com Trane, uma bela improvisação de quase 17 minutos onde o trio desfila seu vasto conhecimento em jazz, soul e country. Nela percebe-se como Woody tem pleno domínio de seu instrumento, não deixando espaço vazio na música.  Na seqüência, vem Temporary Saint, onde Haynes canta com seu vozerão rasgado e embargado. O refrão é prazerosamente grudento. A seguir temos Painted Silver Light, suave e melancólica em seu começo, para depois entrar com os dois pés na porta no refrão, fazendo tudo ruir. Pegada musculosa de Haynes no solo de guitarra. Também fazem parte do álbum Kind of Bird e Mule, essa última para nenhum jazzista por defeito.
Enfim, altamente recomendado para quem gosta de power trios à la Cream.


(Texto: Sérgio Silva)
Continue Lendo...

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Aerosmith - Toys In The Attic (1975)







Quando o Aerosmith entrou no estudio Record Plant pra gravar o seu terceiro álbum, depois de dois discos que, embora com qualidade, não conseguiram decolar, sabia que ela tudo ou nada. Contando de novo com o produtor Jack Douglas - parceria que se repetiu por muitos anos e com tanta sintonia que Douglas acabou recebendo o apelido de ``O sexto Aerosmith´´ - ``Toys Ins The Attic´´ é puro sexo, drogas e rock n´roll. E um dos melhores discos dos anos 70.
Um riff hipnótico, bateria e baixo a todo vapor e um refrão que arrasta qualquer rockeiro para acompanha-lo e a faixa-título abre o disco mostrando poder de fogo. A mistura americana de Rolling Stones com Led Zeppelin finalmente havia chegado ao ponto e "Toys in the attic" começa de forma magistral; "Uncle Salty", uma canção triste feita pelo baixista Tom Hamilton (que assume a guitarra nessa faixa) serve de tapete para Steven Tyler desfilar sua bela voz numa letra angustiante que termina com ecos sessentistas; "Adam's apple" vem com mais riffs espertos e Tyler demonstrando sua habilidade com trocadilhos e jogo de palavras ("Even Eve in Eden") para contar, bem ao seu modo, o "Genesis III" da Bíblia. Golaço! Um dos grandes momentos do disco. "Walk this way", com seu título inspirado numa fala do filme "O jovem Frankstein" (Mel Brooks), vem logo em seguida e é o ponto alto do álbum. Com um riff inesquecível, um ritmo funky calcado em James Brown - uma das influências do vocalista - e The Meters, a banda tocando como se soubesse que estava gravando um clássico do rock e o senso de humor habitual das letras do grupo, a música é uma demonstração da química entre Tyler e Perry, não só enquanto parceiros de palco, mas também como compositores. Anos depois, a música foi regravada pelos rappers do Run DMC - com a participação da dupla de compositores - e contribuiu para o resgate do, então fora de combate, Aerosmith (muito embora a regravação seja bem aquém da versão original); "Big ten inch record" - cover de Bull Moose Jackson - encerra o lado A em clima de rhythm and blues anos 50, com Steven Tyler tocando sua habitual gaita e mais um interessante duplo sentido de conotação sexual ("Suck my big ten inch"). Na abertura do Labo B, mais um clássico; "Sweet Emotion", primeira música da banda a entrar no Top 40 ("Dream On" grande clássico presente no primeiro Lp só alcançaria o Top 10 quando relançada após o sucesso de "Toys in the attic"), chega com um riff de baixo de Tom Hamilton (parceiro de Tyler nessa), marimba e Joe Perry na talk box. Outro destaque é o duelo de guitarras (os dois guitarristas estavam de Stratocaster) e os riffs que servem de ponte para o refrão; Guitarra acústica, outro riff certeiro e a stoniana "No more no more" mantém o pique, enquanto "Round and round" , composição de Tyler com o guitarrista Brad Whitford, traz uma aproximação com o estilo de rock feito pelo Black Sabbath (e que não era muito a praia da banda) e não faz feio. "You see me crying" encerra o disco de forma magistral. Com um belo piano de Tyler, a guitarra de Whitford e uma orquestração de primeira, a balada inicia a tradição da banda - repetida em quase todos os discos desde então - de fechar seus álbuns com belas baladas. 
"Toys in the attic" ganhou disco de ouro e botou a banda para lotar estádios. Depois disso, o Aerosmith gravou outros discos estonteantes, atingiu o estrelado, naufragou nos excessos, acabou, foi citado como influência de nove em cada dez bandas de hard rock dos anos 80, voltou mais forte que nunca, virou ídolo da geração MTV e garantiu o seu lugar como uma das maiores bandas americanas de todos os tempos. Mas seu ponto de referência será sempre os clássicos enfileirados nessa obra-prima.


(Leandro L.Rodrigues)
Continue Lendo...

domingo, 1 de maio de 2016

Woodstock - Mais Que Uma Loja ...








A Woodstock Discos certamente foi uma das mais importantes lojas dedicada a música pesada no Brasil. Na verdade, a loja capitaneada por seu fundador Walcir Chalas, foi responsável por definir um cenário praticamente inexistente até então.
Para os que não vivenciaram aquela época e até mesmo para os que querem manter viva em suas memórias uma história cheia de momentos mágicos e de muita nostalgia musical, podem se deliciar com o documentário “Woodstock – Mais Que Uma Loja...” lançado no ano de 2014 e dirigido por Wladymir Cruz, também responsável pelo roteiro e produção do filme - foi também um dos frequentadores da loja em seu momento áureo e, presta um digno tributo a “Disneylândia dos roqueiros”, como alguns dos entrevistados definem a loja.
Tendo como “espinha dorsal” do longa os depoimentos e várias histórias, contadas pelo próprio Walcir, fazemos um passeio pelos anos oitenta e metade do anos noventa, e nos deparamos com uma era pré internet em que as relações humanas eram o combustível que alimentava o imaginário de uma juventude, que tinha prazer em trocar recortes de revistas ou gravar os últimos lançamentos que chegavam do velho continente pelas mãos de Walcir. As histórias são sempre pautadas por um misto de emoção e orgulho, tanto por parte de várias personalidades que se criaram graças a existência da Woodstock como pelo próprio Walcir.
Vejam depoimentos dos irmãos Cavalera, (que antes de serem mundialmente famosos com o Sepultura, juntavam dinheiro com os amigos para vir a São Paulo comprar discos na loja) e de membros de bandas como Harppia, Vodu, Viper e Ratos de Porão. Entre os depoimentos mais contundentes do filme, está o de Ricardo Batalha(editor chefe da revista Roadie Crew),que diz ter nascido duas vezes; a primeira vez na maternidade e a segunda na Woodstock – definição precisa!
A Woodstock realmente foi mais que uma loja, e esse documentário é providencial por mostrar que entre venda e lançamento de discos, produção de shows e tardes de autógrafo ou até à frente de um programa de rádio (Comando Metal), Walcir imortalizou um nome que já era mundialmente conhecido, de forma digna e autêntica.
Não deixe de ter mais esse documento em sua prateleira, pois é um registro primoroso e item de valor inestimável para todos que viveram essa época!

Continue Lendo...

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ratos de Porão, Sacos de Ratos, Gricerina e B.R.F. - Parque Raul Seixas 02/04/2016







Era uma tarde ensolarada de sábado no parque Raul Seixas, situado no Bairro da Cohab 2, em Itaquera zona  leste de  São Paulo, local este escolhido para ser palco da quarta e  Penúltima apresentação da banda Ratos de Porão, no Circuito Municipal de Cultura, evento promovido pela secretaria de cultura da cidade de São Paulo, uma ressalva que durante esta apresentação do Ratos de Porão diferente do que ocorreu no C.E.U. Aricanduva e C.E.U. Perus foi a opção por bandas de abertura, o que achei uma ótima oportunidade para as bandas divulgarem seu trabalho e terem a honra de tocarem com umas das maiores lendas do Crossover Mundial. As 17:00 pontualmente subiu ao palco a primeira banda de abertura B.F.R (Baseado em Fatos Reais) , banda punk formada no mesmo bairro em meados de 1997 e continuando na ativa até hoje, os caras mandaram seu tradicional Punk rock que em muito me lembrou o Cólera nos áureos tempos do Redson , com muita empolgação apesar de alguns problemas técnico empolgou muitos dos presentes e fez a galera começar a poguear e entrar no clima, com algumas pausas para os tradicionais discursos politizados os caras mandaram bem seu recado tanto musical quanto ideológico, após uma pequena pausa,  subiu ao palco do parque Raul Seixas a Banda Gricerina , formada em novembro de 2007, a banda  executa um som Hardcore/Punk com muitas pegadas de Crossover, os caras fizeram uma verdadeira devastação em forma de show, divulgando seu ultimo Álbum "Mais um dia de loucura Chegando " , intercalando com diversas musicas da carreira da banda os caras fizeram com que a pista virasse um verdadeiro pandemônio , abrindo com a música “Adoradores do estado e do capeta” seguida por “Campinho de Futebol, bolinha de leite” e “Mais um dia de Loucura Chegando” com a galera agitando muitos mosh Pits e Stage Dives. Gricerina sobretudo deu uma aula de Hardcore e de muita humildade , chegando ao ponto de tocarem uma música do Cólera “Subúrbio Geral” contagiando ainda mais o público, finalizando seu show com a clássica "Rolé na Augusta" chamando diversos amigos para subirem ao palco e cantarem  juntos, os caras realmente cativaram a todos, mesmo aos que nunca haviam ouvido a banda, sendo bastante aplaudido por todos que ali estavam, na sequencia tivemos a banda Saco de Ratos uma banda que mesclava elementos de jazz com rock and roll e lembrava em muito Velhas virgens porém mais bem trabalhada diga-se de passagem, sinceramente acredito que esta  não era uma banda pra abrir pro Ratos de Porão devido ao seu tipo de som mais voltado a Rock And Roll mais trabalhado e menos agitado ao mesmo tempo deu uma deixa para que a galera pudesse beber um pouco conversar , rever os amigos e fazer uma social antes que  o show principal começasse, após  uma longa espera eis que surge ao palco uma das maiores entidades do Crossover mundial Ratos de Porão iniciando seu Set list com "Amazônia nunca Mais" levantando todo o publico sedento por musica pesada , criando as primeiras rodas de mosh , seguida da excelente e destrutiva “Conflito Violenta” musica que pertence ao seu último álbum ”Século Sinistro”, para os fãs mais conservadores os caras fizeram um set list impecável tocando seus maiores clássicos, tocando sons como “Crise Geral”, “Plano Furado”, ”Diet Paranoia” , “Beber até Morrer” ,“Anarcophobia” ,“Crucificados Pelo Sistema”, ’’Igreja Universal”, “Suposicollor” , Crocodila” ; dentre muitas outras realmente foi um show para lavar a alma do publico há de se enaltecer a diversidade de públicos que tivemos durante este evento o parque Raul Seixas estava cheio de crianças, adultos e idosos, era nítido que existia o publico do Metal , diversos Punks, músicos de diversas localidades , rappers , enfim foi muito gratificante ver diversas pessoas de diferentes lugares com ideias diferentes convivendo pacificamente durante o evento , a único ponto negativo foi uma falha na PA de voz durante a apresentação do Ratos de Porão que prejudicou um pouco a audição da voz de João Gordo da metade do show pra frente, problema este que foi sanado antes do termino do show, sobre tudo foi um evento muito completo que conseguiu cumprir a difícil tarefa de divulgar bandas mais modestas com uma banda considerada lendária em um mesmo espaço ao mesmo tempo deu um gostinho de saudosismo aos mais velhos e um gás na geração nova, esperamos ansiosamente por mais eventos deste porte onde podemos ver que a música ainda é o ponto maior que nos une diante de tantas coisas que nos separam.  


(Texto: Danylo Paulo)
Continue Lendo...

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Zeca Baleiro - Líricas (2000)









Depois de ser descoberto pelo produtor Mazolla, gravar um primeiro disco bem-humorado, ´´Por Onde Andará Stephen Fry?´´, chamar a atenção do publico no acústico de Gal Costa para a MTV, ser multipremiado pela critica por seu álbum de estréia, gravar um segundo disco, ``Vô imbolá´´, repletode misturas e participações e colocar uma canção nas paradas de sucesso nacionais, ``Lenha´´, Zeca Baleiro chegou no ano de 2000 disposto a fazer diferente. Desligou os instrumentos, colocou o sampler de lado e gravou ``Liricas´´ seu disco mais intimista e profundo.
"É mais fácil cultuar os mortos que os vivos", é a primeira frase do álbum. Com violinos, arranjo e regências de Eduardo Souto Neto, "Minha casa", a música de abertura, dá o tom de sarau, nostalgia e beira de estrada que povoará todo o álbum. Com seu eu-lírico sentado na porta de casa, a canção retrata a disputa interna daquele que pensa em se arriscar, mas prefere a segurança de ver o mundo passar como uma escola de samba que atravessa. "Comigo" é uma balada com clarinete, trompa, hammond e violão de 12 cordas. "Proibida pra mim", versão delicada para um rock do Charlie Brown Jr., vem em seguida com violão, gaita e órgão hammond, confirmando Baleiro como um neotropicalista. Golaço! A cover agradou tanto que Chorão, vocalista do CBJ, pediu para o artista toca-la em seu casamento, mas, é claro, gerou crítica entre os "inteligentes" de plantão. Acontece com todo tropicalista que se preze. Sem dar tempo pra respirar, "Babylon" aparece. Um dos pontos altos do disco, a música, que virou um clássico do repertório de ZB, era originalmente um reggae feito em reação aos "reggaes fakes" que o cantor dizia ouvir muito em São Luís do Maranhão (cidade onde foi criado). Para se enquadrar na temática de "Líricas" já que os resultados obtidos nas tentativas de incluí-la nos álbuns anteriores não foram satisfatórios, o cantor/compositor/ produtor do álbum mudou a levada e contou com o auxílio luxuoso de Celso Fonseca no violão, Arthur Maia no baixolão e Carlos Ranoya com o acordeom que funciona como fio condutor da melodia cuja letra, cheia de ironia, fala dos anseios hedonistas de um personagem principal que, ao contrário dos rastas (um rasta fake?), quer botar sua alma à venda e viver dos prazeres oferecidos pela Babylon. "Balada para Giorgio Armani" resgata as conversas com celebridades que povoaram o primeiro álbum, mas com a acidez que o clima pede ("A cor dessa estação é cinza como o céu de estanho") tendo como tema a velha dualidade: os que tem tudo vs os que nada tem ("O medo é a moda desta triste temporada"). "Ê boi", com enxerto de "Poema sujo" do poeta Ferreira Gullar (também maranhense) e participação do conterrâneo Nosly, é pura nostalgia do Maranhão. Sanfoninha, violão, violoncelo e triângulo e "Nalgum lugar" aparece. Motivada pela cena antológica do filme "Hannah e suas irmãs" em que o personagem de Michael Caine dá voltas no quarteirão para forçar um encontro casual com sua cunhada e presentea-la com um livro de E.E.Cumings, Zeca ficou com o poema - que o personagem lia em voz alta no filme - na cabeça. Quando descobriu a tradução deste por Augusto de Campos decidiu musica-lo. Resultado: uma das mais bonitas canções de um belo disco. Violões à la Secos & Molhados e "Quase nada" , parceria com Alice Ruiz, chega com Vander Lee e Suely Mesquita nos vocais de fundo para se transformar num dos maiores sucessos da carreira do artista."Qual é a parte da sua estrada no meu caminho?" pergunta a letra nos lembrando que o personagem que via o mundo passar pela porta de sua casa continua ali. "Você só pensa em grana" traz o piano de Sacha Amback e muita tristeza. Em época de alegrias projetadas por comerciais de Tv e coreografia de bandas de axé e bondes de funk, o compositor, solitário em sua falta de ambição material, fuzila:"Poeta bom, meu bem, poeta morto". "Banguela" e suas brincadeiras ganha em beleza com a participação de Ná Ozzetti. A presença da cantora nessa canção, cuja letra traz uma familiaridade com as de Itamar Assumpção - já citado pelo cantor numa letra do isco anterior - coloca o álbum em contato com a Vanguarda Paulista dos anos 80. "Blues de elevador" tem gaitas, violão e o sentimento de solidão.O disco encerra com clarinete, violinos, cello, acordeon e "Brigitte Bardot", canção que com seus versos sobre saudade ("A saudade é um filme sem cor que o meu coração quer ver colorido") e a mãe do cantor cantarolando "Na virada da montanha"(AryBarroso/Lamartine Babo) pelo telefone no final dá ao disco de capa preta e branca arroxeada um fim de filme neo-realista europeu dos anos 50. Nada mais adequado. Na porta de sua casa/corpo à beira da estrada/mundo, o personagem se questionou,viu estrelas no céu, cantou sucessos do momento, sonhou com uma vida de prazeres, folheou revistas, lembrou de sua infância,viu filmes, se apaixonou, decepcionou-se, se sentiu sozinho e terminou nostálgico. Mas ainda sonhando. Ainda poeta. FINE.
Depois disso, o artista se aproximou da música eletrônia em "Pet Shop Mundo Cão" _ álbum que contém o hit "Telegrama" - gravou um álbum de parceria com Fagner, se firmou com um dos grandes compositores de sua geração, resgatou a obra de Sergio Sampaio e mergulhou no bailão brega. Mas foi com "Líricas" que ele confirmou que vinha pra ficar. E com muita bala na agulha!



(Leandro L.Rodrigues)
Continue Lendo...

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Van Halen - 1984 (1984)









Quando o ano de 1984 chegou, o Van Halen era a banda do momento. Acabara de ser incluída no livro Guinness como a banda mais bem paga de todos os tempos, cada disco que lançava vendia mais que o anterior e Eddie Van Halen há anos encabeçava a lista do melhor guitarrista do mundo. Isso sem falar na participação do guitarrista, a pedido do produtor Quincy Jones, do histórico disco ´´Thriller´´ (o Lp mais vendido da História) de Michael Jackson, contribuindo com um de seus geniais solos em ´´Beat it´´,o que alargara ainda mais os horizontes da banda. Porém, Van Halen queria ir além...Insatisfeito com as concessões que tivera que fazer no último disco da banda, Diver Down - como gravar "Dancing in the streets", de Marvin Gaye, que ele não queria de jeito algum e só o fez por pressão do vocalista David Lee Roth ("O David queria transformar o Van Halen numa banda de Las Vegas") e do produtor Ted Templeman - o guitarrista montou um estúdio no quintal de sua casa (o 5150) para poder gravar um disco do jeito que ele quisesse. Começava aí o nascimento de uma obra-prima que se não é o melhor trabalho da banda - não vejo como a qualidade do disco de estréia ser superada - é um de seus discos mais representativos.
Se a faixa-título, com seu som espacial de baixo sintetizado e sintetizadores mostra uma diferença para o som tradicional do Van Halen, a faixa seguinte, "Jump", é um giro de cento e oitenta graus. Com seu riff de sintetizador, bem ao estilo das bandas de AOR que inundavam as FMs naquele ano, a música, que se tornou o maior hit da história da banda e um dos maiores da década de 80, é totalmente diferente de tudo que eles haviam lançado até então. Com letra feita pelo vocalista David Lee Roth, que não gostava nada da música e tentou inclusive dissuadir Eddie da idéia de incluí-la no disco (corre rumores de que ela foi uma das responsáveis pela saída do vocalista da banda), inspirada em um homem que ele viu na beira de um parapeito de um arranha-céu e um fantástico solo de guitarra, que Van Halen diz ser um de seus favoritos(resultado da colagem feita pelo produtor de pedaços de dois solos diferentes), além das sensacionais viradas do baterista Alex Van Halen,"Jump" marcava também outra virada na carreira do grupo: se os discos anteriores perdiam por não conterem os pulos, rebolados e piruetas do vocalista da banda, a música com seu bem-sucedido vídeo-clip - exibido à exaustão na MTV - agora trazia toda imagem da banda grudada em seu som. Ao ouvir "Jump" é impossível não lembrar dos pulos de David Lee Roth. Só poderia dar em sucesso. Após o impacto inicial, o riff de "Panama" traz de volta o velho Van Halen. Com sua letra de duplo sentido (Panama pode ser tanto uma mulher quanto um carro), seu clima alegre e o refrão gritado por backing vocals, a música, que traz o ronco da Lamborghini de Eddie, é um típico rock do Van Halen. Outro sucesso. E mais uma cujo clip, com os integrantes da banda voando no palco, grudou em seu som. "Top Jimmy" é uma homenagem de David Lee Roth a James Paul Konceck (o Top Jimmy) e sua banda de rock/blues, Top Jimmy & the Rhythm Pigs, cujas apresentações nas segundas-feiras (Blue Mondays) no nightclub Cathay, em Los Angeles, contavam sempre que possível com a presença do vocalista do Van Halen na plateia ("Top Jimmy is the king"). A música, um dos pontos altos do disco, tem uma levada bem no clima da banda homenageada e traz Lee Roth cantando em duo com o baixista Michael Anthony em parte dos vocais. "Drop dead legs" encerra a primeira parte do disco (o Lado A) com mais um maravilhoso riff de Eddie, o baixo pulsante de Anthony (além de seus característicos backing vocals) e os vocais marcantes de Lee Roth, o que nos faz avaliar a diferença que ele faria em músicas posteriores da banda que apresentam uma familiaridade com essa. Mas quando entra o Lado B é que a coisa estremece. Com o memorável solo de bateria do excepcional Alex e Eddie mandando ver com a mesma Gibson Flying V usada em "Drop dead legs" (o sobrenome dos irmãos tinha mesmo que ser o nome da banda!), "Hot for teacher" e sua letra sobre a atração sexual do aluno pela professora é um hard frenético com direito a paradinhas, falas capciosas de Lee Roth, um apoteótico final. Como se não bastasse, a música ainda gerou um dos melhores vídeo-clips da história com crianças caracterizadas como os membros da banda. Nota dez para a música e para o clip! Depois do frenesi de "Hot for teacher", "I'll wait" chega com mais sintetizadores e uma inusitada parceria da banda com o ex-Doobie Brothers Michael McDonnald, cujo nome só foi incluído nos créditos depois de muita luta. Essa é outra que Lee Roth tentou tirar do álbum. "Girl gone bad" traz mais uma vez o brilhantismo de Eddie na guitarra e a personalidade vocal de David. O disco encerra com "House of pain", canção resgatada da demo apadrinhada por Gene Simmons (Kiss) em 1974, cuja fantástica apoteose instrumental final encerra de forma zeppeliniana mais um grande disco da banda.
O caminho estava aberto. O disco foi direto para o segundo lugar das paradas (o primeiro ainda era de "Thriller"), vendeu milhões de cópias e consegrou de vez a banda. Daí por diante, dezenas de banda surgiriam em Los Angeles apostando na imagem de seus vocalistas, na rapidez de sues guitarristas, na magia de seus teclados e na força de seus vídeo-clips para chegarem ao topo (Estava iniciada a era do "hard-rock shampoo") e o Van Halen nunca mais seria o mesmo: Lee Roth partiria para uma carreira-solo, com uma banda de fazer inveja ao VH, e a banda seguiria com Sammy Hagar nos vocais. Banda e ex-vocalista passariam anos trocando farpas em entrevistas e títulos de álbuns e se encontrariam anos depois em dispensáveis caça-níqueis.
Se o livro homônimo de George Orwell, escrito em 1984, fazia uma previsão pessimista com um mundo dominado pelo totalitarismo e o pensamento único, cercado de vigilância e "teletelas", o disco do Van Halen é o retrato em tempo real daquele mesmo ano na "Terra da Democracia". Ali está a Califórnia dos anos 80 com seu hedonismo, seus nightclubs, seus carrões, sua MTV, suas prostitutas, seus alunos desinteressados, sua luxuria, seus suicidas e sua inocência perdida (retratada pela irônica capa de um anjo fumando - capa esta que substituiu a ideia original que era de strippers cromatizadas). E , sobretudo, com uma de suas grandes bandas de rock pesado no auge de seus poderes.


(Texto: Leandro L.Rodrigues)
Continue Lendo...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Gilberto Gil - Refazenda (1975)








Em 1972, Gilberto Gil voltou do exílio londrino com força total. Lançou, no mesmo ano o antológico álbum ``Expresso 2222´´ (que merece resenha própria); em 1973, viveu um dos epsódios mais emblemáticos da música brasileira, quando seu microfone e o do parceiro Chico Buarque foi cortado durante a apresentação da musica ``Cálice´´, o que materializou a mensagem da obra; assumiu a direção musical de trabalhos de Gal Costa e Jorge Mautner e voltou ao topo das paradas com ``Eu Só Quero Um Xodó´´ e ``Maracatu Atômico´´. Em 75, depois de lançar um álbum magico ao lado de Jorge ben, ``Ogum e Xangô´´, entraria em estudio para dar forma a mais um clássico absoluto da música brasileira: Refazenda.
A capa, com o artista vestindo kimono e se alimentando de comida macrobiótica e cercado por uma teia repleta de símbolos religiosos, familiares e sociais, já indicava o conteúdo do álbum: Gil iria viajar para o interior de si mesmo, do país, da sua música, da sua fé. Iria refazer-se. Com um violão ao estilo Jorge Ben (parceiro cuja sintonia absoluta pode ser comprovada no álbum lançado no mesmo ano) e uma exuberante linha de baixo de Moacir Albuquerque (o baixista da turma toda nos anos 70), o popsambalanço "Ela" abre o álbum em alta voltagem com Gil refletindo sua relação com a música e a mulher amada. "Tenho sede" surge com o acordeon de Dominguinhos - que permeará todo álbum representando o interior do Nordeste também sempre presente nos contornos da alma do compositor de Ituaçu - e sua simplicidade aliados ao falsete mágico e o belo violão de Gil. "A planta pede chuva quando quer brotar, o seu logo escurece quando vai chover", diz a letra contemplativa bem em sintonia com a temática de questionamento, reflexão e observação das naturezas do álbum. A música título vem em seguida com sua melodia envolvente, emoldurada pela beleza do acordeon de Dominguinhos e a orquestração de Perinho Albuquerque, e sua letra controversa, um nonsense cheio de sentido onde abacateiros, patos, leões, tomates e mamões se juntam e se combinam culminando num trecho de "Mulher rendeira", a música composta pelo cangaceiro Lampião, e terminando com a palavra "Guariroba", que além de ser o nome de uma árvore,era também o nome de uma fazenda de um grupo de amigos do músico onde eles pensavam em formar uma comunidade alternativa. O artista seguiria o exemplo da natureza e deixaria a vida seguir seu fluxo, com momentos de recolhimento, momentos de fruto e momentos de aprender e outros de ensinar (Alguns interpretaram o abacateiro e seu ato como uma referência ao regime dos militares - hipótese possível, embora desmentida pelo compositor - mas simples demais para uma composição do Gil de então). Nota dez! "Pai e mãe" dá sequencia questionando os padrões conservadores de família e afetividade. Fala de maneira elegante sobre homossexualismo ("Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens como eu beijo meu pai") e a renovação dos valores familiares ("Minha mãe como vai?Como vão seu temores?") contornado pela flauta mágica de Altamiro Carrilho, um belo violão de 7 cordas de Dino e, claro, o acordeon de Dominguinhos. "Jeca total",composta, segundo o próprio, sob inspiração de ver a obra de Jorge Amado na Tv a cores ("Assistindo Gabriela viver tantas cores"), é uma primeira incursão do universo do compositor no mundo de Monteiro Lobato (mistura essa que resultaria na bem sucedida canção tema do programa "Sítio do Pica-Pau Amarelo" em 1977), Nesta Gil propõe a transformação do Jeca Tatu num Jeca Total. Uma transmutação nietzschiana do interiorano, alienado e acomodado personagem de Lobato que encontra seu ideal na figura do antenado poeta Jorge Salomão (também nascido no interior da Bahia e na ocasião figurando em Nova Iorque). "Essa é pra tocar no rádio" (também presente no disco-jam ao lado de Jorge) é uma representante das gravações do mal fadado projeto "Cidade de Salvador" (LP que Gil gravou para lançar em 1973, mas, sabe-se lá porque, abandonou e o trabalho só veio à luz em 1999), com Rubão Sabino no baixo e Tutti Moreno na bateria, a letra questiona em tom de deboche os critérios de escolha dos programadores de rádio num jazz-funk na linha Miles Davis setentista totalmente em desacordo com o seu título. De todas as músicas do Lp, ela é a que tinha menos chance de tocar nas rádios. "Ê,povo, Ê" é um pop com sotaque nordestino com um belo trombone tocado por Bogado e que faria sucesso na trilha de qualquer telenovela (surpreendentemente nunca entrou em nenhuma). "Retiros espirituais" vem na sequencia com um belo trabalho de Gil usando pedais na sua guitarra num poema musicado que trata da filosofia taoísta do wu wei (ação sem ação) e cannabis. Um belo momento de introspecção que o artista diz ser um de seus preferidos em toda sua obra. Em "O Rouxinol", música que viria a batizar o bem-sucedido álbum para o mercado norte-americano (The Nightingale) que o artista lançou em 78 sob a produção de Sergio Mendes, o pássaro de Sousândrade, o visionário poeta maranhense re-visto pelos concretistas irmãos Campos (Haroldo e Augusto) nos anos 60, reaparece na voz e na forma do transmutado Gilberto Misterioso insinuado por Caetano numa letra típica de Jorge Mautner acompanhada do ágil violão de Fredera. "Lamento sertanejo", letra de Gil para música feita por Dominguinhos, que declarou nos anos 2000 que "Refazenda" foi um dos discos mais bonitos no qual ele trabalhou, nos anos 60 , fecha o ciclo de maneira brilhante e emocionante. O navegador de "Ela" que saiu cheio de sede pelo mundo enfrentando procelas, questionando valores, fazendo-se e refazendo-se, vê-se num grande centro como uma rês desgarrada na boiada da cidade. Está contrariado, mas agora sabe qual é a real diferença e termina o trabalho em plena "Meditação" (talvez no mesmo tatami da capa) e com efeitos de pedal. "Tudo sempre acaba sendo o que era de se esperar", conclui.
Produzido por Mazolla, o interiorano "Refazenda" (passado) é o disco que inicia a famosa trilogia "Re" do compositor, em 77 viria o afro "Refavela" (presente) e em 79, o universal "Realce" (futuro), a patrulha ideológica criticou o trabalho pela falta de engajamento político, os conservadores continuaram torcendo o nariz para seu espírito libertário, mas a vida seguiu e o resultado do disco foi a consolidação do cantor como um nome de peso para a gravadora. Estava dado o pontapé inicial para uma trilogia clássica de uma carreira recheada de discos históricos. 


(Texto: Leandro L.Rodrigues)
Continue Lendo...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...