Era uma tarde ensolarada de sábado no parque Raul
Seixas, situado no Bairro da Cohab 2, em Itaquera zona leste de
São Paulo, local este escolhido para ser palco da quarta e Penúltima apresentação da banda Ratos de
Porão, no Circuito Municipal de Cultura, evento promovido pela secretaria de
cultura da cidade de São Paulo, uma ressalva que durante esta apresentação do
Ratos de Porão diferente do que ocorreu no C.E.U. Aricanduva e C.E.U. Perus foi a
opção por bandas de abertura, o que achei uma ótima oportunidade para as bandas
divulgarem seu trabalho e terem a honra de tocarem com umas das maiores lendas
do Crossover Mundial. As 17:00 pontualmente subiu ao palco a primeira banda de
abertura B.F.R (Baseado em Fatos Reais) , banda punk formada no mesmo bairro em
meados de 1997 e continuando na ativa até hoje, os caras mandaram seu
tradicional Punk rock que em muito me lembrou o Cólera nos áureos tempos do
Redson , com muita empolgação apesar de alguns problemas técnico empolgou
muitos dos presentes e fez a galera começar a poguear e entrar no clima, com
algumas pausas para os tradicionais discursos politizados os caras mandaram bem
seu recado tanto musical quanto ideológico, após uma pequena pausa, subiu ao palco do parque Raul Seixas a Banda
Gricerina , formada em novembro de 2007, a banda executa um som Hardcore/Punk com muitas
pegadas de Crossover, os caras fizeram uma verdadeira devastação em forma de show,
divulgando seu ultimo Álbum "Mais um dia de loucura Chegando " , intercalando
com diversas musicas da carreira da banda os caras fizeram com que a pista
virasse um verdadeiro pandemônio , abrindo com a música “Adoradores do estado e
do capeta” seguida por “Campinho de Futebol, bolinha de leite” e “Mais um dia
de Loucura Chegando” com a galera agitando muitos mosh Pits e Stage
Dives. Gricerina sobretudo deu uma aula de Hardcore e de muita humildade ,
chegando ao ponto de tocarem uma música do Cólera “Subúrbio Geral” contagiando
ainda mais o público, finalizando seu show com a clássica "Rolé na
Augusta" chamando diversos amigos para subirem ao palco e cantarem juntos, os caras realmente cativaram a todos,
mesmo aos que nunca haviam ouvido a banda, sendo bastante aplaudido por todos
que ali estavam, na sequencia tivemos a banda Saco de Ratos uma banda que
mesclava elementos de jazz com rock and roll e lembrava em muito Velhas virgens
porém mais bem trabalhada diga-se de passagem, sinceramente acredito que
esta não era uma banda pra abrir pro
Ratos de Porão devido ao seu tipo de som mais voltado a Rock And Roll mais
trabalhado e menos agitado ao mesmo tempo deu uma deixa para que a galera
pudesse beber um pouco conversar , rever os amigos e fazer uma social antes
que o show principal começasse,
após uma longa espera eis que surge ao
palco uma das maiores entidades do Crossover mundial Ratos de Porão iniciando
seu Set list com "Amazônia nunca Mais" levantando todo o publico sedento
por musica pesada , criando as primeiras rodas de mosh , seguida da excelente e
destrutiva “Conflito Violenta” musica que pertence ao seu último álbum ”Século
Sinistro”, para os fãs mais conservadores os caras fizeram um set list
impecável tocando seus maiores clássicos, tocando sons como “Crise Geral”,
“Plano Furado”, ”Diet Paranoia” , “Beber até Morrer” ,“Anarcophobia”
,“Crucificados Pelo Sistema”, ’’Igreja Universal”, “Suposicollor” , Crocodila”
; dentre muitas outras realmente foi um show para lavar a alma do publico há de
se enaltecer a diversidade de públicos que tivemos durante este evento o parque
Raul Seixas estava cheio de crianças, adultos e idosos, era nítido que existia
o publico do Metal , diversos Punks, músicos de diversas localidades , rappers
, enfim foi muito gratificante ver diversas pessoas de diferentes lugares com
ideias diferentes convivendo pacificamente durante o evento , a único ponto
negativo foi uma falha na PA de voz durante a apresentação do Ratos de Porão que
prejudicou um pouco a audição da voz de João Gordo da metade do show pra
frente, problema este que foi sanado antes do termino do show, sobre tudo foi
um evento muito completo que conseguiu cumprir a difícil tarefa de divulgar
bandas mais modestas com uma banda considerada lendária em um mesmo espaço ao
mesmo tempo deu um gostinho de saudosismo aos mais velhos e um gás na geração
nova, esperamos ansiosamente por mais eventos deste porte onde podemos ver que
a música ainda é o ponto maior que nos une diante de tantas coisas que nos
separam. (Texto: Danylo Paulo)
Depois de ser descoberto pelo produtor Mazolla, gravar um primeiro disco bem-humorado, ´´Por Onde Andará Stephen Fry?´´, chamar a atenção do publico no acústico de Gal Costa para a MTV, ser multipremiado pela critica por seu álbum de estréia, gravar um segundo disco, ``Vô imbolá´´, repletode misturas e participações e colocar uma canção nas paradas de sucesso nacionais, ``Lenha´´, Zeca Baleiro chegou no ano de 2000 disposto a fazer diferente. Desligou os instrumentos, colocou o sampler de lado e gravou ``Liricas´´ seu disco mais intimista e profundo. "É mais fácil cultuar os mortos que os
vivos", é a primeira frase do álbum. Com violinos, arranjo e regências de
Eduardo Souto Neto, "Minha casa", a música de abertura, dá o tom de
sarau, nostalgia e beira de estrada que povoará todo o álbum. Com seu eu-lírico
sentado na porta de casa, a canção retrata a disputa interna daquele que pensa
em se arriscar, mas prefere a segurança de ver o mundo passar como uma escola
de samba que atravessa. "Comigo" é uma balada com clarinete, trompa,
hammond e violão de 12 cordas. "Proibida pra mim", versão delicada
para um rock do Charlie Brown Jr., vem em seguida com violão, gaita e órgão
hammond, confirmando Baleiro como um neotropicalista. Golaço! A cover agradou
tanto que Chorão, vocalista do CBJ, pediu para o artista toca-la em seu
casamento, mas, é claro, gerou crítica entre os "inteligentes" de
plantão. Acontece com todo tropicalista que se preze. Sem dar tempo pra
respirar, "Babylon" aparece. Um dos pontos altos do disco, a música,
que virou um clássico do repertório de ZB, era originalmente um reggae feito em
reação aos "reggaes fakes" que o cantor dizia ouvir muito em São Luís
do Maranhão (cidade onde foi criado). Para se enquadrar na temática de
"Líricas" já que os resultados obtidos nas tentativas de incluí-la
nos álbuns anteriores não foram satisfatórios, o cantor/compositor/ produtor do
álbum mudou a levada e contou com o auxílio luxuoso de Celso Fonseca no violão,
Arthur Maia no baixolão e Carlos Ranoya com o acordeom que funciona como fio
condutor da melodia cuja letra, cheia de ironia, fala dos anseios hedonistas de
um personagem principal que, ao contrário dos rastas (um rasta fake?), quer
botar sua alma à venda e viver dos prazeres oferecidos pela Babylon.
"Balada para Giorgio Armani" resgata as conversas com celebridades
que povoaram o primeiro álbum, mas com a acidez que o clima pede ("A cor
dessa estação é cinza como o céu de estanho") tendo como tema a velha
dualidade: os que tem tudo vs os que nada tem ("O medo é a moda desta
triste temporada"). "Ê boi", com enxerto de "Poema
sujo" do poeta Ferreira Gullar (também maranhense) e participação do
conterrâneo Nosly, é pura nostalgia do Maranhão. Sanfoninha, violão, violoncelo
e triângulo e "Nalgum lugar" aparece. Motivada pela cena antológica
do filme "Hannah e suas irmãs" em que o personagem de Michael Caine
dá voltas no quarteirão para forçar um encontro casual com sua cunhada e
presentea-la com um livro de E.E.Cumings, Zeca ficou com o poema - que o
personagem lia em voz alta no filme - na cabeça. Quando descobriu a tradução
deste por Augusto de Campos decidiu musica-lo. Resultado: uma das mais bonitas
canções de um belo disco. Violões à la Secos & Molhados e "Quase
nada" , parceria com Alice Ruiz, chega com Vander Lee e Suely Mesquita nos
vocais de fundo para se transformar num dos maiores sucessos da carreira do
artista."Qual é a parte da sua estrada no meu caminho?" pergunta a
letra nos lembrando que o personagem que via o mundo passar pela porta de sua
casa continua ali. "Você só pensa em grana" traz o piano de Sacha
Amback e muita tristeza. Em época de alegrias projetadas por comerciais de Tv e
coreografia de bandas de axé e bondes de funk, o compositor, solitário em sua
falta de ambição material, fuzila:"Poeta bom, meu bem, poeta morto".
"Banguela" e suas brincadeiras ganha em beleza com a participação de
Ná Ozzetti. A presença da cantora nessa canção, cuja letra traz uma
familiaridade com as de Itamar Assumpção - já citado pelo cantor numa letra do
isco anterior - coloca o álbum em contato com a Vanguarda Paulista dos anos 80.
"Blues de elevador" tem gaitas, violão e o sentimento de solidão.O
disco encerra com clarinete, violinos, cello, acordeon e "Brigitte
Bardot", canção que com seus versos sobre saudade ("A saudade é um
filme sem cor que o meu coração quer ver colorido") e a mãe do cantor
cantarolando "Na virada da montanha"(AryBarroso/Lamartine Babo)
pelo telefone no final dá ao disco de capa preta e branca arroxeada um fim de
filme neo-realista europeu dos anos 50. Nada mais adequado. Na porta de sua casa/corpo
à beira da estrada/mundo, o personagem se questionou,viu estrelas no céu,
cantou sucessos do momento, sonhou com uma vida de prazeres, folheou revistas,
lembrou de sua infância,viu filmes, se apaixonou, decepcionou-se, se sentiu
sozinho e terminou nostálgico. Mas ainda sonhando. Ainda poeta. FINE. Depois disso, o artista se aproximou da música
eletrônia em "Pet Shop Mundo Cão" _ álbum que contém o hit
"Telegrama" - gravou um álbum de parceria com Fagner, se firmou com
um dos grandes compositores de sua geração, resgatou a obra de Sergio Sampaio e
mergulhou no bailão brega. Mas foi com "Líricas" que ele confirmou
que vinha pra ficar. E com muita bala na agulha! (Leandro L.Rodrigues)
Quando o ano de 1984 chegou, o Van Halen era a banda do momento. Acabara de ser incluída no livro Guinness como a banda mais bem paga de todos os tempos, cada disco que lançava vendia mais que o anterior e Eddie Van Halen há anos encabeçava a lista do melhor guitarrista do mundo. Isso sem falar na participação do guitarrista, a pedido do produtor Quincy Jones, do histórico disco ´´Thriller´´ (o Lp mais vendido da História) de Michael Jackson, contribuindo com um de seus geniais solos em ´´Beat it´´,o que alargara ainda mais os horizontes da banda. Porém,
Van Halen queria ir além...Insatisfeito com as concessões que tivera que fazer
no último disco da banda, Diver Down - como gravar "Dancing in the
streets", de Marvin Gaye, que ele não queria de jeito algum e só o fez por
pressão do vocalista David Lee Roth ("O David queria transformar o Van
Halen numa banda de Las Vegas") e do produtor Ted Templeman - o
guitarrista montou um estúdio no quintal de sua casa (o 5150) para poder gravar
um disco do jeito que ele quisesse. Começava aí o nascimento de uma obra-prima
que se não é o melhor trabalho da banda - não vejo como a qualidade do disco de
estréia ser superada - é um de seus discos mais representativos. Se a faixa-título, com seu som espacial de baixo
sintetizado e sintetizadores mostra uma diferença para o som tradicional do Van
Halen, a faixa seguinte, "Jump", é um giro de cento e oitenta graus.
Com seu riff de sintetizador, bem ao estilo das bandas de AOR que inundavam as
FMs naquele ano, a música, que se tornou o maior hit da história da banda e um
dos maiores da década de 80, é totalmente diferente de tudo que eles haviam
lançado até então. Com letra feita pelo vocalista David Lee Roth, que não
gostava nada da música e tentou inclusive dissuadir Eddie da idéia de incluí-la
no disco (corre rumores de que ela foi uma das responsáveis pela saída do
vocalista da banda), inspirada em um homem que ele viu na beira de um parapeito
de um arranha-céu e um fantástico solo de guitarra, que Van Halen diz ser um de
seus favoritos(resultado da colagem feita pelo produtor de pedaços de dois
solos diferentes), além das sensacionais viradas do baterista Alex Van
Halen,"Jump" marcava também outra virada na carreira do grupo: se os
discos anteriores perdiam por não conterem os pulos, rebolados e piruetas do
vocalista da banda, a música com seu bem-sucedido vídeo-clip - exibido à
exaustão na MTV - agora trazia toda imagem da banda grudada em seu som. Ao
ouvir "Jump" é impossível não lembrar dos pulos de David Lee Roth. Só
poderia dar em sucesso. Após o impacto inicial, o riff de "Panama"
traz de volta o velho Van Halen. Com sua letra de duplo sentido (Panama pode
ser tanto uma mulher quanto um carro), seu clima alegre e o refrão gritado por
backing vocals, a música, que traz o ronco da Lamborghini de Eddie, é um típico
rock do Van Halen. Outro sucesso. E mais uma cujo clip, com os integrantes da
banda voando no palco, grudou em seu som. "Top Jimmy" é uma homenagem
de David Lee Roth a James Paul Konceck (o Top Jimmy) e sua banda de rock/blues,
Top Jimmy & the Rhythm Pigs, cujas apresentações nas segundas-feiras (Blue
Mondays) no nightclub Cathay, em Los Angeles, contavam sempre que possível com
a presença do vocalista do Van Halen na plateia ("Top Jimmy is the
king"). A música, um dos pontos altos do disco, tem uma levada bem no
clima da banda homenageada e traz Lee Roth cantando em duo com o baixista
Michael Anthony em parte dos vocais. "Drop dead legs" encerra a
primeira parte do disco (o Lado A) com mais um maravilhoso riff de Eddie, o
baixo pulsante de Anthony (além de seus característicos backing vocals) e os
vocais marcantes de Lee Roth, o que nos faz avaliar a diferença que ele faria
em músicas posteriores da banda que apresentam uma familiaridade com essa. Mas
quando entra o Lado B é que a coisa estremece. Com o memorável solo de bateria
do excepcional Alex e Eddie mandando ver com a mesma Gibson Flying V usada em
"Drop dead legs" (o sobrenome dos irmãos tinha mesmo que ser o nome
da banda!), "Hot for teacher" e sua letra sobre a atração sexual do
aluno pela professora é um hard frenético com direito a paradinhas, falas
capciosas de Lee Roth, um apoteótico final. Como se não bastasse, a música
ainda gerou um dos melhores vídeo-clips da história com crianças caracterizadas
como os membros da banda. Nota dez para a música e para o clip! Depois do
frenesi de "Hot for teacher", "I'll wait" chega com mais
sintetizadores e uma inusitada parceria da banda com o ex-Doobie Brothers
Michael McDonnald, cujo nome só foi incluído nos créditos depois de muita luta.
Essa é outra que Lee Roth tentou tirar do álbum. "Girl gone bad" traz
mais uma vez o brilhantismo de Eddie na guitarra e a personalidade vocal de
David. O disco encerra com "House of pain", canção resgatada da demo
apadrinhada por Gene Simmons (Kiss) em 1974, cuja fantástica apoteose
instrumental final encerra de forma zeppeliniana mais um grande disco da banda. O caminho estava aberto. O disco foi direto para o
segundo lugar das paradas (o primeiro ainda era de "Thriller"),
vendeu milhões de cópias e consegrou de vez a banda. Daí por diante, dezenas de
banda surgiriam em Los Angeles apostando na imagem de seus vocalistas, na
rapidez de sues guitarristas, na magia de seus teclados e na força de seus
vídeo-clips para chegarem ao topo (Estava iniciada a era do "hard-rock
shampoo") e o Van Halen nunca mais seria o mesmo: Lee Roth partiria para
uma carreira-solo, com uma banda de fazer inveja ao VH, e a banda seguiria com
Sammy Hagar nos vocais. Banda e ex-vocalista passariam anos trocando farpas em
entrevistas e títulos de álbuns e se encontrariam anos depois em dispensáveis
caça-níqueis. Se o livro homônimo de George Orwell, escrito em
1984, fazia uma previsão pessimista com um mundo dominado pelo totalitarismo e
o pensamento único, cercado de vigilância e "teletelas", o disco do
Van Halen é o retrato em tempo real daquele mesmo ano na "Terra da Democracia".
Ali está a Califórnia dos anos 80 com seu hedonismo, seus nightclubs, seus
carrões, sua MTV, suas prostitutas, seus alunos desinteressados, sua luxuria,
seus suicidas e sua inocência perdida (retratada pela irônica capa de um anjo
fumando - capa esta que substituiu a ideia original que era de strippers
cromatizadas). E , sobretudo, com uma de suas grandes bandas de rock pesado no
auge de seus poderes.
Em 1972, Gilberto Gil voltou do exílio londrino com força total. Lançou, no mesmo ano o antológico álbum ``Expresso 2222´´ (que merece resenha própria); em 1973, viveu um dos epsódios mais emblemáticos da música brasileira, quando seu microfone e o do parceiro Chico Buarque foi cortado durante a apresentação da musica ``Cálice´´, o que materializou a mensagem da obra; assumiu a direção musical de trabalhos de Gal Costa e Jorge Mautner e voltou ao topo das paradas com ``Eu Só Quero Um Xodó´´ e ``Maracatu Atômico´´. Em 75, depois de lançar um álbum magico ao lado de Jorge ben, ``Ogum e Xangô´´, entraria em estudio para dar forma a mais um clássico absoluto da música brasileira: Refazenda. A capa, com o artista vestindo kimono e se
alimentando de comida macrobiótica e cercado por uma teia repleta de símbolos
religiosos, familiares e sociais, já indicava o conteúdo do álbum: Gil iria
viajar para o interior de si mesmo, do país, da sua música, da sua fé. Iria
refazer-se. Com um violão ao estilo Jorge Ben (parceiro cuja sintonia absoluta
pode ser comprovada no álbum lançado no mesmo ano) e uma exuberante linha de
baixo de Moacir Albuquerque (o baixista da turma toda nos anos 70), o
popsambalanço "Ela" abre o álbum em alta voltagem com Gil refletindo
sua relação com a música e a mulher amada. "Tenho sede" surge com o
acordeon de Dominguinhos - que permeará todo álbum representando o interior do
Nordeste também sempre presente nos contornos da alma do compositor de Ituaçu -
e sua simplicidade aliados ao falsete mágico e o belo violão de Gil. "A
planta pede chuva quando quer brotar, o seu logo escurece quando vai
chover", diz a letra contemplativa bem em sintonia com a temática de
questionamento, reflexão e observação das naturezas do álbum. A música título
vem em seguida com sua melodia envolvente, emoldurada pela beleza do acordeon
de Dominguinhos e a orquestração de Perinho Albuquerque, e sua letra
controversa, um nonsense cheio de sentido onde abacateiros, patos, leões,
tomates e mamões se juntam e se combinam culminando num trecho de "Mulher
rendeira", a música composta pelo cangaceiro Lampião, e terminando com a
palavra "Guariroba", que além de ser o nome de uma árvore,era também
o nome de uma fazenda de um grupo de amigos do músico onde eles pensavam em
formar uma comunidade alternativa. O artista seguiria o exemplo da natureza e
deixaria a vida seguir seu fluxo, com momentos de recolhimento, momentos de
fruto e momentos de aprender e outros de ensinar (Alguns interpretaram o
abacateiro e seu ato como uma referência ao regime dos militares - hipótese
possível, embora desmentida pelo compositor - mas simples demais para uma
composição do Gil de então). Nota dez! "Pai e mãe" dá sequencia
questionando os padrões conservadores de família e afetividade. Fala de maneira
elegante sobre homossexualismo ("Eu passei muito tempo aprendendo a beijar
outros homens como eu beijo meu pai") e a renovação dos valores familiares
("Minha mãe como vai?Como vão seu temores?") contornado pela flauta
mágica de Altamiro Carrilho, um belo violão de 7 cordas de Dino e, claro, o
acordeon de Dominguinhos. "Jeca total",composta, segundo o próprio,
sob inspiração de ver a obra de Jorge Amado na Tv a cores ("Assistindo
Gabriela viver tantas cores"), é uma primeira incursão do universo do
compositor no mundo de Monteiro Lobato (mistura essa que resultaria na bem sucedida
canção tema do programa "Sítio do Pica-Pau Amarelo" em 1977), Nesta
Gil propõe a transformação do Jeca Tatu num Jeca Total. Uma transmutação
nietzschiana do interiorano, alienado e acomodado personagem de Lobato que
encontra seu ideal na figura do antenado poeta Jorge Salomão (também nascido no
interior da Bahia e na ocasião figurando em Nova Iorque). "Essa é pra
tocar no rádio" (também presente no disco-jam ao lado de Jorge) é uma
representante das gravações do mal fadado projeto "Cidade de Salvador"
(LP que Gil gravou para lançar em 1973, mas, sabe-se lá porque, abandonou e o
trabalho só veio à luz em 1999), com Rubão Sabino no baixo e Tutti Moreno na
bateria, a letra questiona em tom de deboche os critérios de escolha dos
programadores de rádio num jazz-funk na linha Miles Davis setentista totalmente
em desacordo com o seu título. De todas as músicas do Lp, ela é a que tinha
menos chance de tocar nas rádios. "Ê,povo, Ê" é um pop com sotaque
nordestino com um belo trombone tocado por Bogado e que faria sucesso na trilha
de qualquer telenovela (surpreendentemente nunca entrou em nenhuma).
"Retiros espirituais" vem na sequencia com um belo trabalho de Gil
usando pedais na sua guitarra num poema musicado que trata da filosofia taoísta
do wu wei (ação sem ação) e cannabis. Um belo momento de introspecção que o
artista diz ser um de seus preferidos em toda sua obra. Em "O
Rouxinol", música que viria a batizar o bem-sucedido álbum para o mercado
norte-americano (The Nightingale) que o artista lançou em 78 sob a produção de
Sergio Mendes, o pássaro de Sousândrade, o visionário poeta maranhense re-visto
pelos concretistas irmãos Campos (Haroldo e Augusto) nos anos 60, reaparece na
voz e na forma do transmutado Gilberto Misterioso insinuado por Caetano numa
letra típica de Jorge Mautner acompanhada do ágil violão de Fredera.
"Lamento sertanejo", letra de Gil para música feita por Dominguinhos,
que declarou nos anos 2000 que "Refazenda" foi um dos discos mais
bonitos no qual ele trabalhou, nos anos 60 , fecha o ciclo de maneira brilhante
e emocionante. O navegador de "Ela" que saiu cheio de sede pelo mundo
enfrentando procelas, questionando valores, fazendo-se e refazendo-se, vê-se
num grande centro como uma rês desgarrada na boiada da cidade. Está
contrariado, mas agora sabe qual é a real diferença e termina o trabalho em
plena "Meditação" (talvez no mesmo tatami da capa) e com efeitos de
pedal. "Tudo sempre acaba sendo o que era de se esperar", conclui. Produzido por Mazolla, o interiorano
"Refazenda" (passado) é o disco que inicia a famosa trilogia
"Re" do compositor, em 77 viria o afro "Refavela"
(presente) e em 79, o universal "Realce" (futuro), a patrulha
ideológica criticou o trabalho pela falta de engajamento político, os
conservadores continuaram torcendo o nariz para seu espírito libertário, mas a
vida seguiu e o resultado do disco foi a consolidação do cantor como um nome de
peso para a gravadora. Estava dado o pontapé inicial para uma trilogia clássica
de uma carreira recheada de discos históricos.
Em comemoração ao mês da mulher o C.E.U. Alto Alegre vem promovendo uma série de atividades voltadas para o publico feminino e, entre as muitas novidades, a grande noticia foi a a apresentação de Maria Gadú, que esta em turnê pelas varias unidades do Centro Educacional Unificado.
O show estava marcado para ter inicio as oito horas da noite e os ingresso que já vinham sendo disputados a tapas e já estavam esgotados, eram apenas objeto de desejo entre os que ainda nutriam esperanças de assistir a apresentação da cantora.
Confesso que não sabia muito bem o que esperar dessa apresentação, pois conhecia apenas a indefectível ``Shimbalaiê``. Por isso, fui totalmente ``desarmado``, afim de conhecer melhor a carreira desta que já possui grande reconhecimento do publico e tem a benção de monstros sagrados como Caetano Veloso e Milton Nascimento. Após algumas considerações dos responsáveis pela administração do C.E.U. eis Maria Gadú acompanhada pelo percursionista Felipe Roseano que de cara, dominaram o palco e a plateia - assim que o primeiro acorde foi emitido de seus instrumentos.
O inicio se deu com ``Suspiro´´ , musica de seu ultimo disco ``Guelã´´ - daí por diante amigos, confesso que fui me deixando envolver pelas melodias ``quebradas`` e de muito bom gosto que eram despejadas de sua guitarra e da bateria precisa de Roseano. ``O bloco´´, do mesmo disco veio na sequencia e foi inflamando o publico presente. Com a platéia na mão, Maria Gadú prestou homenagem ao Legião Urbana ``Quase Sem Querer´´ e Paralamas Do Sucesso ``Lanterna Dos Afogados´´ que mescladas com suas composições fizeram a alegria dos que testemunhavam o espetáculo. Destaque absoluto para a belíssima ``Axé Acapella´´ (Dani Black e Luisa Maita), que foi executada em uma performance de tirar o folego.
Sim, as composições que fizeram Maria Gadú atingir o prestigio que possui foram tocadas com a habitual empolgação da cantora - que bastante comunicativa atendia ao clamor de seus seguidores.de forma bem descontraída e levemente encabulada. No final das contas deu pra entender o orgulho de mãe da cantora que acompanhava a apresentação da filha com os olhos marejados de orgulho por ter concebido tamanho talento. Que mais artistas como ela possam surgir para dar alegria as próximas gerações.
Em meio à festa hedonista da juventude pós- Guerra Fria, em que tudo era prazer, tudo efêmero, tudo consumo, uma banda aparece para desafinar o coro dos contentes. Nada de raves, nada de ecstasys. Nada de sexo, corrente de ouro ou carrões. Armados de protesto e revolta, o Rage Against The Machine apareceria e chegaria ao topo das paradas para mostrar que nem só de cama da Madonna, dos perigos do Michael Jackson e de indivuduais crises existenciais viveria a música dos 90. Nem todos estavam contentes com a situação. Nem todos enxergavam as benesses do
way of life capitalista como o Paraíso na Terra. Havia raiva na parada.
Trazendo na capa a célebre foto de Robert Browne,
com um monge budista ateando fogo ao próprio corpo como forma de protesto ao
governo assassino e paranóico de Ngo Dinh Diem no Vietnã do Sul, o disco de
estréia do RATM , produzido pela própria banda, transborda crítica e subversão
por todos os lados. A banda, formada em Los Angeles a partir de um encontro
entre o novaiorquino, bacharel em ciências políticas e candidato a guitar hero
Tom Morello com o rapper free style de origem xicana Zack de La Rocha, além de
letras totalmente de protesto, apresenta na sua música uma mistura de riffs
pesados à la Black Sabbath, com vocais rappeados, solos rápidos,
experimentalismo de guitarra e uma cozinha (Jim Commerford no baixo e Brad Wilk
na bateria) que ora pende para a dureza heavy metal, ora mergulha no balanço
funk. Da introdução de baixo da abertura “Bombtrack” - o single que traz Che
Guevara na capa - que culmina num refrão explosivo, ao último ruído de
“Freedom”, a banda não deixa a peteca cair e não alivia em nenhum momento para
o sistema. Todas as suas artimanhas são despudoradamente desmascaradas. Sem
gordura, nem embromação, o disco vai direto ao ponto. Une magistralmente o hip
hop com o heavy metal e mostra que enquanto a energia do rock n'roll sobreviver
nem tudo será festa e propaganda. “Killing in the name”, primeiro single
lançado pela banda, logo se transformou num hino e ganhou em cheio o coração
daqueles que sentiam que algo estava errado na festa do pensamento único.
“Ignorance has taken over, we gonna take the power back”(“A ignorância dominou,
nós vamos tomar o poder de volta”), diz De la Rocha em “Take the power back” ,
discurso contra o controle ideológico no sistema educacional americano sob um
magistral trabalho de Morello na guitarra com a banda saindo do chão num rock
de pegada ímpar. Mais um hino. Em “Wake up”, Luther King, Malcolm X e Mohammed
Ali são citados para levantar as consciências contra o racismo
institucionalizado. Em “Bullet in the head”, um dos pontos altos do disco, a
guitarra de Morello começa a demonstrar as inovações – presentes com destaque
também em “Fistful of Steel” - que se seguiriam nos discos posteriores. Em
“Know your enemy”, com introdução , riff e solo de guitarra hipnóticos e os
marcantes slaps de baixo de Commerford (que também aparecem em "Take the
power back") em mais um rock de tirar o fôlego, que conta ainda com a
participação de Stephen Perkins, o incrível baterista do Janes's Addiction, na
percussão e Maynard James Keenan nos vocais (substituindo o Jane's Addiction
Perry Farrell que não pode atender ao convite), as cartas são colocadas na
mesa: Acordo,conformidade,obediência,ignorância,hipocrisia,brutalidade,
a elite , todos os elementos do sonho americano são os inimigos da banda. A
bomba estava pronta. E seria lançada de dentro do próprio sistema que ela se
propunha a destruir - afinal a banda era contratada da Epic (Sony) - para se
tornar um clássico inconteste do rock mundial. O conteúdo desafiador do álbum levou a banda a ser
proibida de se apresentar em alguns estados norte-americanos, o que só
colaborou com a sua popularização entre jovens ansiosos por rebeldia. Depois
disso os integrantes da banda ainda se apresentaram nus e em silêncio no
Festival Lollapallooza de 93 em protesto contra os órgãos de censura da “Terra
da Liberdade” e o RATM se firmou como a banda mais antissistema do sistema,
influenciou toda uma geração e estilo e acabou se tornando trilha de filmes e
jogos de videogame(!). Se você procura beleza harmônica, metáforas bem
elaboradas ou clima de festa e descontração, fuja deste disco. Ele é todo feito
de peso e revolta. Ruído e fúria contra a máquina do sistema.
As manifestações do último dia 13 evidenciam não somente a insatisfação com o governo e a corrupção, mas também servem para mostrar uma situação que a cada dia fica mais aparente, pois o que deveria ser um marco democrático serve na maioria dos casos (e falo da grande maioria), para desfilar um misto de arrogância e alienação política.
Não meus amigos, não digo que os que empunhavam cartazes de ordem e que defendem a intervenção militar ou o tal Bolsonaro para presidente devem possuir diploma de ciências políticas ou algo que o valha, mas que possuam reais motivos para “estar lá” sem servir de instrumento para confabulações nebulosas. Definitivamente postar selfies com a camisa da C.B.F. em redes sociais não é o melhor exemplo para demonstrar que é contra o atual cenário político,que definitivamente está muito longe de ser o melhor. No entanto, temos que tomar muito cuidado com a superficialidade que nos cerca, pois ela pode ser impiedosa.
O que sinceramente me incomoda nesse circo todo, é justamente o fato da população mirar o dedo somente para Lula e Dilma, quando outros personagens com desenvoltura tão nefasta quanto à dos já citados Lula e Dilma. A lista é extensa e mostra a face desesperadora que nos espera caso seja decretado o impeachment da presidente. Imaginar Temer na presidência causa enorme temor (não poderia deixar de usar o trocadilho), nos que ainda tem um pingo de consciência política.
O que se viu no último domingo nas principais avenidas do Brasil, é relevante e deve ser considerado como um sinal de alerta ao que está acontecendo nesse país que a muito tempo já sofre com falcatruas tão ou melhor elaboradas que as de agora. O que realmente me incomoda é o fato de que essa história de que o gigante acordou e outras calhordices similares não passam de balela, pois apesar de haver pessoas sérias em meio às reivindicações, também tem os que adoram “oba oba!”, esses certamente desviariam o foco ao primeiro sinal de situação “vergonha alheia”. Bom, a discussão é praticamente infinita e sem sombra de dúvidas, está muito longe de terminar. Por isso é importante termos a consciência de que nosso destino pode estar descendo ralo a baixo enquanto os porcos andam em duas pernas..
Banda/Grupo: Relíquia Dj & Delinquência Periférica Álbum/Promo Demo :Pixadores Nacionalidade:Brasil Gênero:Rap Gravadora:Independente Ano: 2016 Nota:7,5 Track List: 1.Base 2. Pixadores (Relíquia Dj) 3.Tem de monte (T.D.M) (Relíquia Dj & Insano Mc) 4.Sai do pé (Delinquência Periférica) 5.Original Rap Nacional(Delinquência Periférica)
O que realmente define uma artista independente, sua persistência
em continuar seu trabalho, mesmo em condições adversas, mesmo sem apoio dos
familiares e dos amigos, sua garra em querer mostrar seu trabalho acima de tudo
é o que define o caráter e a caminhada honesta de um artista independente, já
tendo passado por diversos grupos de Rap tais como Correria Constant, Século 21 dentre
outros, e tendo ajudado tantos outros a construir bases e criar musicas o
Rapper Douglas mais conhecido como Relíquia
Dj se junta aos seus amigos do Delinquência Periférica e nos
mostra que garra e persistência eles tem de sobra e nos presenteiam com sua
primeira Demo Promo intitulada “Pixadores”
, este trabalho contem 4 músicas; “Pixadores” ,“tem de monte” de autoria de Relíquia Dj esta ultima em parceria
com Insano Mc que também faz parte do grupo Delinquência Periférica, e “Sai
do pé”, ”Original Rap Nacional” de autoria do grupo Delinquência Periférica , e mais uma base que compõe mais um som que será
lançado no futuro , Relíquia Dj morador do Bairro Recanto Verde Sol , mostra em
seu som que buscou abordar um tema
polemico e muito mal conhecido e muito mal compreendido, o universo da pichação, a primeiro momento você pode torcer o nariz
por não conhecer ou achar que isso é coisa de “Vagabundo” porém o que temos
aqui é a narração real de quem vive e viveu o mundo do grafite e da pichação em
sua mais verdadeira essência, o que temos aqui é um documentário musical do
que se passa na cabeça dos jovens da periferia que utilizam da pichação e do grafite
para expressar suas emoções e sua inconformidade com o mundo que os cerca,
citando diversos skatistas, grafiteiros e pichadores conhecidos e alguns
desconhecidos do cenário Hip Hop esta música serve como uma aula de arte de rua
aqueles que ainda não são familiarizados com esta expressão artística originaria
da periferia, destaco também a musica Original Rap Nacional de autoria do grupo
de Rap do Jd da Conquista, região de São Mateus o Delinquência Periférica que utiliza de seus versos para denunciar a
podridão que ocorre na sociedade na qual vivemos, os desmandos e abusos da
policia na periferia, realizando um som de protesto e conscientização,
mostrando que dos becos e vielas da favela surgem verdadeiros monstros da
contra cultura suburbana e da arte de rua, a qualidade da gravação impressiona
ao saber que tudo feito em um minie-Studio improvisado no quarto da casa do Dj Relíquia o que nos mostra mais uma vez que nada pode
parar um artista independente afim de mostrar seu trabalho para o mundo, esta promo demo é uma verdadeira celebração do
que é Gagsta Rap Marginal em sua mais pura essência, um verdadeiro brinde aos
bate cabeças e uma porta de boas vindas aqueles que ainda não conhecem o que o
Rap Nacional tem de bom a oferecer , confiram sem medo....
A primeira vez que vi a Cerberus Attack ao
vivo, fiquei impressionado. Primeiro porque não imaginava que pudéssemos ter
uma banda com tamanha personalidade e fazendo um som autoral em pleno lado
Leste da cidade, onde o histórico de bandas cover predominava em bares e casas
de “rock” da famigerada região. Segundo porque o som viceral e cheio de energia
praticado pela banda alimentava uma cena que se fez surgir e desaparecer como
um relâmpago, mas que deixou um rastro de bandas que se formaram para
redesenhar um cenário que praticamente inexistira. O tempo passou e muita coisa
mudou, mas a Cerberus Attack continua firme e se aperfeiçoando ainda mais
dentro do tal underground. Para sabermos mais sobre os os caminhos percorridos
e quais serão os próximos passos desse destemido quarteto, falaremos com Jhon
França (guitarra e vocal) da Cerberus.
S.I. – Houve um período na Zona Leste,
mais precisamente em São Mateus e proximidades, que existia um movimento muito
intenso voltado para o som pesado. Alguns “festivais” organizados de forma
totalmente independente ajudaram a divulgar muitas bandas que surgiram naquele
período, vide “Carnificina Fest” e “Buchada de Bode”. No entanto a maioria das
bandas que participaram desse movimento já não existem mais. Nos fale um pouco
sobre esse período e sobre o que motivou a Cerberus a permanecer na ativa?
Jhon França - Primeiramente boa tarde, meu amigo Robério
e obrigado pelo convite. Esse período do Carnificina Fest e Buchada de Bode que
rolou aqui na região foi de extrema importância pra cena de música pesada
continuar de fato até hoje, não com a mesma força de antes devido a várias
bandas terem se desfeito porém, com a mesma intensidade. Fizemos muitos bons
amigos nesses festivais os quais conservamos a amizade até hoje, uma boa
observação que podemos fazer dessa época foi que muitas bandas acabaram porém,
muitas outras surgiram mantendo o mesmo ideal e o espirito de coletividade do ``it yourself``. Agora, o que tem motivado o Cerberus a continuar tocando até hoje
sem dúvida nenhuma é essa realidade injusta que fazemos parte, cada vez mais
nos levando pro fundo do poço, tirando nossos bens, implantando leis, colocando
na cabeça de nossas crianças uma cultura porca e sem fundamento. Algo deve ser
feito quanto a isso, talvez se fossemos médicos ou bombeiros salvaríamos mais
vidas, porém, nascemos com o dom da música então vamos tocar! (risos).
S.I. – Depois de algumas mudanças em seu
line up, parece que agora as coisas estão estabilizadas. De qualquer forma, uma
das formações que marcou bastante a Cerberus contava com o Renato Moulin nos
vocais. Qual foi o motivo que os levou a permanecer como quarteto? Vocês
chegaram a fazer testes para encontrar um substituto para o Renato?
Jhon França - Na época em que o Renatinho saiu da banda
eu estava fora também fazia uns dias devido a umas dificuldades que tive na
época, acho que isso deve ter sobrecarregado os caras um pouco, deve ter sido um
choque dois membros saindo ao mesmo tempo. Foi feito alguns testes com
vocalistas e tínhamos um guitarrista que entrou bem rápido chamado Felipe. Na
minha opinião o Cerberus Attack tem uma identidade sonora muito forte e esse
fato impediu um pouco para achar vocalista naquela época (mais ou menos 10
pessoas fizeram teste) e na época em que pedi pra voltar pra banda os caras
aceitaram numa boa (depois é claro de um grande sermão !! hahaha) e meu vocal
encaixou legal na banda até porque o Renatinho é minha grande influência pra
varias coisas da vida desde que eu era um pequeno Padawan do metal (risos).
Então decidimos continuar como quarteto mesmo e todos que fazem parte hoje do
Cerberus estão mais compromissados e dispostos do que nunca.
S.I – “Welcome To Destruction” e o split
com o Cranial Crusher foram duas amostras de que vocês não estavam brincando e
que as pretenções da banda iam além de “tocar por tocar”. Existe previsão para
lançamento de um “full length”?
Jhon França - Existe sim, inclusive estamos gravando, um
full intitulado “From East With Hate” que contará com 7 músicas novas e uma
regravação de um som da nossa demo de 2009. A gravação, mixagem e masterização
foi confiada a nosso brother Denis Gomes guitarrista e vocal do Furia V8 e
quando eu digo “confiada” é confiada mesmo, nada melhor do que alguém que
entenda de som pesado para gravar um disco de som pesado e ele já está a anos
nesse ramo e dessa vez irei apenas fazer parte da produção mesmo. Esse disco
vai marcar uma nova fase nossa porque as 7 músicas inéditas foram feitas com
essa formação atual (no Split ainda contávamos com composições do Renatinho). From
East With Hate está previsto para o meio do ano e estamos em contato com alguns
selos para lançamento em diversas partes do Brasil. As letras estarão mais
pesadas também acompanhando nossa realidade atual abordando coisas mais sérias
e menos fantásticas, estamos com grandes expectativas para esse lançamento!
S.I. – Aparentemente a parceria com a
Genocídio Produções vem se mostrando bastante interessante e, coincidência ou
não, o nome da Cerberus Attack vem sendo mais evidenciado entre as bandas do
underground. Nos fale a respeito dessa parceria e quais os frutos dessa união?
Jhon França - Bom, conhecemos a Lívia em um show que
fomos convidados em São Carlos, ela se mostrou bastante competente e
responsável em relação a organização do festival, logo depois nos ofereceu os
serviços de sua assessoria e aceitamos logo de cara. Ficamos muito felizes com o
resultado que essa parceria está causando e a um tempo atrás contratamos a
Metal Media como assessoria também porque acreditamos na nossa mensagem e
queremos que ela vá cada vez mais longe e liberte cada vez mais pessoas dentro
e fora do Underground.
S.I. – Já faz algum tempo vocês gravaram
um vídeo clip de “From This Prison“. O resultado final ficou muito bom. No
entanto, o YouTube vem fazendo frente a TV e inclusive determinando o
sucesso de muitos artistas pela quantidade de “Likes” e visualizações. Isso
consequentemente engessou a comunicação e interação em torno de qualquer
trabalho, pois através de um “click” o acesso é imediato a informação que
desejar. Como a banda encara essa (não tão) nova realidade em detrimento da
saudosa troca de fitas cassetes “trade tapes”?
Jhon França - Falando por mim, mesmo com todas essas
tecnologias que temos hoje em dia eu sou amante dos discos de vinil, cassetes,
vhs, e também das mídias um pouco mais “novas” (cds e dvds), coleciono até hoje
como você já sabe. Mas hoje em dia infelizmente não existe mais essa saudosa
troca de informações de você ir na casa de um amigo com uma fita “virgem” e
gravar aquele LP importado que ele acabou de comprar juntando dinheiro por um
tempão, porém, aqui em casa ainda fazemos umas seções “antigueiras” onde se
junta todo mundo pra ouvir um LP, tomar uma cerveja e ``tals``. Na minha
opinião o Youtube tem revolucionado o mercado trazendo a informação a um
clique, mas como toda ferramenta, nas mãos erradas faz um estrago tremendo pois
há muita coisa ruim nas redes sociais, não só no youtube mas facebook,
whatsapp, entre outros, Mas também há muita coisa boa na internet e muitas pessoas
bem intencionadas que se propõem a levar informação só depende de nós mesmos
agregar o melhor para o nosso desenvolvimento, hoje é bem mais fácil conhecer
uma banda, é só colocar seu nome no youtube, o que muita gente erra é achar que
isso já é o bastante e o artista trabalhou meses para gravar 10 músicas em um
cd, colocou toda sua ideologia nesse disco é conhecido por causa de uma música.
A letra da ``From This Prison`` é direcionada apenas a Rede de Televisão mesmo
(paga e gratuita), uma rede qual não termos controle nenhum e vive nos
empurrando lixo cultural e uma série de informações duvidosas que nos faz
pensar que o país está falido e precisamos vender nossos recursos para o
exterior a preço de banana. Isso me revolta um pouco.
S.I. – sabemos que viver de musica é algo
praticamente impossível em nosso país. Como os integrantes da Cerberus lidam
com essa realidade, já que todos possuem família constituída e
responsabilidades fora da música?
Jhon França - Nós do Cerberus Attack desde o começo
quando entrei na banda já conversávamos sobre isso e chegamos à conclusão que
hoje em dia realmente aqui no Brasil não dá pra viver de Thrash Metal, por
tanto a intenção sempre foi espalhar nossa mensagem para o maior número de
pessoas possível até um dia quem sabe sermos reconhecidos por alguma gravadora
europeia que queira nos produzir já que lá é o mercado do Thrash, mas por
enquanto iremos seguir com nossos trabalhos do cotidiano, compor cada vez mais
e tentar tocar cada vez em mais lugares.
S.I. – conhecendo um pouco de cada
integrante podemos perceber a enorme variedades de estilos que os influência
individualmente. Podemos perceber desde o Thrash “Old School”, passando pelo
Punk e Hardcore até coisas mais descaradamente Pop. Como é conduzido o processo
de criação na banda, levando em conta essa gama de influências?
Jhon França - Caro amigo, nossas influências vão muito
além disso mesmo (risos), porém, no período em que estamos compondo procuramos
ouvir mais bandas de heavy, thrash, punk e hardcore mesmo para que a parte
musical não perca muito em essência. Já na parte de composição das letras não
paro em meu local de descanso e escrevo. No meu caso são escritas em quanto
estou viajando, pegando um ônibus ou em uma fila qualquer, porque descansando não
sinto verdade no que escrevo, tenho que estar vivendo aquilo, vivendo aquela
revolta e nessas horas sempre estou ouvindo alguma coisa diferente como grupos
de rap, discos de pop dos anos 80, bandas alternativas, em fim. Tudo aquilo que
toca meu coração musicalmente é válido, acho que isso é uma características que
divido com meus companheiros de banda, principalmente com o Maskote. Não existe
barreiras na musica.
S.I. – No próximo dia 19 vocês dividirão o
palco com Blasthrash e Comando Nuclear, duas das mais respeitadas bandas do
cenário Heavy/ Thrash de São Paulo tendo respectivamente em seus currículos a
oportunidade de ter tocado com lendas como Tankard e Possessed. Muito se fala
sobre união no Underground, mas realmente existe essa união entre as bandas?
Jhon França - Cara, entre as bandas acredito que sim,
por conta de uns e outros acabamos separados em pequenos grupos, assim como em
toda comunidade há inimizades, não digo da parte do Cerberus, tentamos nos unir
com a cena do thrash o máximo possível agregando o maior número de bandas e
fazemos sempre bons amigos por onde quer que passemos, inclusive o Diego do
Blasthrash se tornou um grande amigo nosso em um evento em que tocamos juntos e
quando ele nos convidou pra este festival nós ficamos muito gratos pelo
reconhecimento, esperamos dividir palco com essas bandas no futuro também.
S.I. – Jhon, para finalizar, gostaria
muito de agradecer em nome do Salada Itinerante sua colaboração e dizer que
temos imensa satisfação em divulgar qualquer tipo de expressão artística, seja
ela do mainstream ou underground. Mais uma vez obrigado e, por favor deixe suas
considerações finais e qualquer informação que julgar relevante sobre a
Cerberus Attack.
Jhon França - Queria agradecer em nome da banda a você
Robério pela consideração e o convite e espero que esta entrevista ajude o
leitor a entender um pouco mais por trás do som pesado e agressivo do Cerberus
Attack. Gostaria de agradecer também todo mundo que nos apoia e está presente
nos shows desde 2008 e dizer que logo estaremos com disco novo dedicado a todos
que nos ajudaram e um videoclipe também, muito obrigado!
Quando ``Juventude Transviada´´, impulsionada pela sua inclusão na trilha sonora da novela ``Pecado Capital´´, estourou no Brasil inteiro e colocou Luiz Melodia sob os holofotes da fama, ele assustou-se. Sem disposição para lidar com as imposições da vida de estrela, decidiu fugir para a Bahia para repensar seus caminhos. Lá, caiu no desbunde, conheceu Jane Reis, que tornou-se sua segunda esposa e compôs as musicas que integrariam seu terceiro disco: uma obra dedicada aos marginalizados, uma reflexão do seu papel de artista e do mundo. O baudelairiano ``Mico de Circo´´.
Posando de jeans e óculos escuros num estilo que
mistura Taj Mahal (bluesman americano, ídolo do artista cujo um dos filhos
chama-se Mahal) e a bandidagem do Morro do São Carlos e envolto numa aura (ou
sombra?) branca, a capa traz apenas "Luiz Melodia" estampado. É na
contracapa, onde o artista aparece com uma espécie de túnica branca igual ao
que o envolve na foto da capa, que aparece o título "Mico de Circo",
uma referência ao bandido Mico Sul, cria do mesmo morro que Melodia, e à
condição do cantor enquanto artista, enquanto peça de uma engrenagem. Cada qual
com seu papel e seu lugar. Cada qual marginal de um jeito. No encarte o aviso,
o disco é um tributo. E segue-se uma lista que mistura nomes de bandidos do São
Carlos (Caveirinha, Cara de Cavalo, etc.), com artistas "marginais"
(Torquato Neto, Helio Oiticica), amigos do morro e artistas (Roberto Carlos,
Jamelão, Angela Maria), esportistas (Garrincha, Roberto Dinamite) e até
políticos (Getúlio Vargas) que representavam a alegria e a esperança desse
mundo "apartheideado" da cidade. Com os metais da Orquestra Tabajara, o disco começa
cheio de ironia. "A voz do morro" de Zé Ketti - trilha sonora do
filme de Nelson Pereira dos Santos (que também está na lista de homenageados),
Rio 40 graus (cuja trama, assim como o disco em questão, girava de um Rio de
Janeiro dividido entre morro e cidade) - gravada por sugestão do seu mentor
Wally Salomão, abre o disco como uma resposta aos críticos e diretores
artísticos que não se conformavam com um negro vindo do morro não querer seguir
a regra mercadologicamente estabelecida e se profissionalizar como sambista.
"Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor", canta
cheio de deboche e em formato de gafieira a Melodia de um Brasil feliz. Sai a
Orquestra Tabajara e entra em cena os metais da Oberdan Magalhães e o balanço
magistral da Banda Black Rio dando formato a beleza de "Onde o Sol bate e
se firma", canção típica do compositor Melodia em que ele flana pela
cidade sem juízo, não se reconhecendo como parte dela. "Estou em torno da
cidade (...) os transeuntes me agitam, me perco sobre a multidão(...)" .
Em seguida aparece "Presente Cotidiano", que havia tido problemas com
a censura cinco anos antes, quando foi gravada por Gal Costa, e só escapou da
censura total que havia sido lhe imposta e conseguiu entrar no disco
"Índia", sob a condição de ter sua letra modificada e não ser
apresentada em público nem executada nos meios de comunicação de massa. Enfim
totalmente liberada, nessa gravação, o criador canta a sua criação como
imaginou e o "Tá tão assim", que Gal foi forçada a cantar, finalmente
é substituído pelo "Tá tão ruim" que os censores impediram de ser
dito. "Quem vai querer comprar banana? Quem vai querer comprar a
lama?", pergunta o cantor, em meio ao funk batucado da Black Rio, com a
sua divisão rítmica que confundiu inclusive o maestro Arthur Verocai. "Vou
caminhar um pouco mais atrás da rua.", conclui a letra no mesmo espírito
flaneur da faixa anterior e que permanecerá por todo o disco. "Giros de
sonho", vem no clima blueseiro, com belos vocais femininos, arranjados por
Perinho Santana, emoldurando o belo e marcante canto de Melô e uma letra que,
assim como "Pérola Negra", "Juventude Transviada" e outras,
tem sua inspiração em alguma ex-namorada do cantor. Samba funk em alta voltagem
da Back Rio é a vez de "O morro não engana", parceria do compositor
com o também parceiro de peladas Ricardo Augusto e que no mesmo ano ganhou uma
gravação no disco de estréia de Zezé Mota, aparecer, com violões, teclados,
sopros e a pulsação do baixo de Jamil Jones, para encerrar o primeiro lado do
disco cheio de suingue. "Morro do medo, morro do sono, morro do sonho,
morro no asfalto", canta a voz do morro num esperto jogo de palavras
("Pobre de mim, pobre de nada"), bem típico de suas incompreendidas
letras. O piano de João Donato, parceria que depois se repetiu em outros
discos, dá o tom e "Mulato latino", primeira de muitas músicas que
ele gravaria do compositor Papa Kid, entra em cena cheia de latinidade com um
belo trabalho percussivo, além do brilhantismo dos vocais do cantor. "Bata
com a cabeça" aparece como um recado ameaçador aos seus
detratores("Quem falar por mim/ que ao menos apareça porque vai dançar,
onde for/bata com a cabeça") num soul nervoso, que é também o
primeiro registro fonográfico da guitarra de Victor Biglione, com um arranjo
brilhante de Marcio Montarroyos. Em "Falando de pobreza" a guitarra
de Perinho Santana dá o tom para uma letra do compositor Tureko que, cheia de
angústia, soa irônica e questionadora dos valores e convenções culturais
vigentes ("Falando de pobreza sem ser triste, falando de tristeza sem ser
pobre, ah, há quanto tempo? ah, quanto custa hoje em dia?"). "Solando
no tempo" traz os belos sopros de Oberdan e a voz de veludo do cantor no
seu melhor estilo, que tanto influenciaria nossos roqueiros-blueseiros-mpbistas
como Cazuza e Cássia Eller, enquanto "Fadas", canção que anos depois
viria a se tornar um clássico no seu repertório, fecha o trabalho de forma
magistral. Com, o então "A Cor do Som", Armandinho já demonstrando o
talento para chorinhos que depois marcaria sua carreira, Melodia passeia por
uma letra cheia da dubiedade característica da sua forma de se expressar.A voz
poética de "Onde o Sol bate se firma" com um toque de sonhar sozinho
sai em qualquer direção. "De passo-a-passo passo", conclui de forma
magistral seu passeio pela cidade dividida. A voz marginalizada agora é poeta.
Como num passe de mágica. Num conto de fadas. Mas continua cego e sem direção.
Sem juízo. A capa e a contracapa. Produzido por Guto Graça Mello e lançado pela Som
Livre, "Mico de Circo" teve um lançamento inusitado nas ruas de
Salvador, com Melodia e Wally Salomão desfilando pelas ruas da cidade numa
charrete até o Mercado Sete Portas onde foi distribuído um grande almoço. O
artista justificou o lançamento nas ruas dizendo que são nelas que os
marginais, os homenageados do disco, se encontram. O disco teve críticas
positivas, mas não teve o mesmo trabalho de divulgação nem o mesmo exito
comercial dos anteriores (embora mantenha o mesmo padrão de qualidade). As
dificuldades de relacionamento de Melodia com os esquemas da gravadora e o show
business começavam a tomar maiores proporções. Começava aí a fama de maldito
que acabaria virando uma marca. Depois desse trabalho, sairia da Som Livre e
entraria num troca-troca de gravadoras que marcaria sua difícil década de 80
até um retorno triunfal nos anos 90. "Mico de circo" é o fim de um
ciclo. Um fechamento que conclui em alto nível a trilogia que marca a genial primeira
fase da carreira de um dos mais completos artistas da música brasileira da
geração pós tropicália.